Skip to content

Toda graça genuína no coração produz uma vida de santidade prática

“O amor…não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.” (I Coríntios 13: 6)

Com estas palavras o apóstolo resume todas as boas tendências da caridade com relação à sua conduta ativa. É como se ele dissesse: “Eu não necessito exemplificar mais nada. Em poucas palavras, a caridade é contrária a tudo a que é injusto na vida e na prática, e ao mesmo tempo promove tudo o que é bom e justo.”

O termo injustiça diz respeito a tudo o que é pecaminoso na vida e na prática. O termo verdade fala a respeito de tudo o que é bom, virtuoso, e santo. Verdade no contexto desta passagem inclui tanto o conhecimento quanto a conformidade com a verdade.

A grande doutrina aqui ensinada é que toda graça genuinamente Cristã produz uma vida de santidade prática. Se qualquer homem pensa que a graça no coração permanece inoperante e não controla a direção que as pessoas devam tomar, então ele possui uma noção completamente errada da vida Cristã. O nosso texto expressa, tanto de forma positiva quanto negativa, que a graça no coração não é realmente operante a menos que atinja todas as áreas da vida.

I. ARGUMENTOS QUE APOIAM ESTA DOUTRINA.

A santidade de vida é objetivo final da nossa eleição diante de Deus, que é o alicerce de toda graça. Ao contrário do que muitos pensam, a prática da santidade não é o fundamento nem a razão da eleição, mas o objetivo e o fim da eleição. Deus não escolheu os homens porque viu de antemão que eles seriam santos. Nosso Senhor disse: Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça (João 15: 16). Efésios 2: 10 nos fala que Deus preparou antecipadamente as boas obras para o seu povo. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

A santidade de vida é objetivo final da redenção. A missão de Cristo ao deixar o céu e vir para a terra era salvar o povo dos seus pecados (Mateus 1: 21). Pouco antes de sua morte, Ele orou desta maneira: E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade (João 17: 19). Paulo explica para Tito que o grande propósito de Cristo foi o de se dar a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras (2: 14). Esta verdade foi tipificada na ordem feita a Faraó repetidas vezes: Deixa ir o meu povo, para que me sirva no deserto; porém eis que até agora não tens ouvido (Êxodo 7: 16, etc.)

A santidade de vida é o objetivo final da chamada eficaz ou conversão. Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação (I Tessalonicenses 4: 7). Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver (I Pedro 1: 15).

A santidade de vida é a tendência do verdadeiro conhecimento e entendimento espiritual. Há, é claro, uma coisa chamada de conhecimento especulativo, o qual muitos homens ímpios tem alcançado em alto grau. Eles até são capazes de argumentar fortemente acerca dos atributos de Deus e das doutrinas do Cristianismo. Mas há uma eternidade de diferença entre este conhecimento especulativo e o conhecimento prático e verdadeiro. Aquele que verdadeiramente conhece a Deus, sabe distinguir entre a odiosidade do pecado e a beleza da santidade. Este conhecimento tende a incliná-lo nos caminhos da santidade. Ele sabe que Deus é digno da sua obediência. A falta deste conhecimento impediu a Faraó de obedecer a Deus. Quem é o SENHOR, cuja voz eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não conheço o SENHOR, nem tampouco deixarei ir Israel (Êxodo 5: 2). O Salmista pergunta: Não terão conhecimento os que praticam a iniqüidade, os quais comem o meu povo, como se comessem pão, e não invocam ao SENHOR? (Salmo 14: 4). De acordo com Jeremias 22: 16, o conhecimento de Deus nos leva a um comportamento santo: Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR.

Nós vemos a mesma conexão em I João 2: 4, Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade.

Considere alguns argumentos do próprio princípio da graça em si:

Primeiro, o consenso imediato da graça se encontra na vontade ou disposição. Esta faculdade comanda todas as nossas ações. Quando falamos das ações de um homem, estamos falando daquelas coisas que ele faz como um agente livre e voluntário. Todos os seus poderes executivos estão sujeitos à faculdade da vontade. Portanto, se a graça estiver presente em nossa vontade, então necessariamente a levará à prática das virtudes graciosas.

Segundo, a própria definição da graça é que ela é um princípio de ação santa. O princípio da graça tem tanta relação com a prática quanto a raiz tem com a planta. Seria um absurdo falar da raiz sem a planta, assim como falar de um princípio da graça que não leve a prática da graça.

Terceiro, o que é real pode ser distinguido daquilo que seja apenas uma sombra, através das suas ações efetivas. O retrato de um homem pode parecer muito real e poderoso, mas não tem o poder da ação. Da mesma maneira, a graça que não passa de uma mera aparência também não pode agir, mas a graça que é real produz ações de santidade.

Quarto, nas Escrituras, o homem natural é descrito como estando espiritualmente morto, sem princípios ou ações santas, e incapaz de fazer o bem. Mas aquele que foi regenerado é descrito como espiritualmente vivo, e, portanto, agindo, caminhando, e preenchendo os seus dias com obras que demonstram a existência de uma nova vida.

Quinto, a graça Cristã não é apenas um princípio de vida, mas um princípio extremamente poderoso. O poder que opera nos filhos de Deus é nada menos do que o mesmo e poderoso poder que ressuscitou a Cristo dentre os mortos (Efésios 1: 19-20).

II. ESTA DOUTRINA, DE QUE A GRAÇA NO CORAÇÃO NOS INCLINA A UMA VIDA DE SANTIDADE PRÁTICA, PODE SER MAIS AINDA PROVADA QUANDO CONSIDERAMOS ALGUMAS GRAÇAS PARTICULARES.

Vamos considerar algumas.

A graça da fé em Jesus Cristo produz santidade prática. A verdadeira fé é aquela que opera pelo amor (Gálatas 5: 6). Tiago, capítulo dois, nos ensina que a nossa fé é demonstrada através das nossas obras. Se um homem realmente acredita naquilo que lhe foi relatado, ele agirá segundo as informações que recebeu, caso contrário, ele agirá como se nunca tivesse ouvido nada. A nossa prática sempre será de acordo com as nossas convicções. A fé nos leva a renunciar outras formas de garantir a felicidade por estarmos convencidos de que Cristo é a única fonte da verdadeira felicidade. Além disso, a fé não somente nos conduz Àquele que nos salva da punição do pecado, como também do próprio pecado. O homem que não deseja ser liberto do domínio do pecado, não pode desejar que Cristo seja o seu salvador. Em outras palavras, Cristo nunca poderá se tornar o salvador dos homens a menos que se torne o Senhor deles. O ofício sacerdotal de Cristo não pode ser separado do ofício do seu senhorio. Além disso, se nós genuinamente crermos em Cristo, então confiaremos a Ele absolutamente tudo. Nós arriscaremos tudo, nos submetendo voluntariamente a todo e qualquer trabalho, lutas, e sofrimentos, sabendo que ele irá mais do que compensar quaisquer lutas e perdas que eventualmente tivermos.

A graça do amor de Deus produz santidade prática. O amor influencia toda a nossa vida e ações de um jeito ou de outro. Se um homem ama o dinheiro, então suas ações o direcionarão em busca dele. Se ele ama a honra, ou o prazer carnal, ele perseguirá estas coisas, e sua vida será regida por elas. Assim também, se um homem ama a Deus, a sua vida e ações serão reguladas por isso. As nossas ações são um verdadeiro teste para as nossas afeições. Se um homem diz que ama a seu amigo, mas não está disposto a sofrer nada por ele, suas palavras são vãs. O amor verdadeiro é evidenciado por seus frutos de conduta. O amor a Deus é exercido em um alto grau de estima por Ele, escolhendo-o, desejando-o, e se deleitando nEle. Se a nossa honra, dinheiro, ou vontade competirem com Deus, devemos abandoná-las e nos apegarmos somente a Ele. Nós provamos a sinceridade do nosso amor pela obediência que demonstramos a Deus. Quando abandonamos alguma coisa em busca de outra, demonstramos claramente toda a nossa insatisfação para com a primeira.

A graça do arrependimento produz santidade prática. O arrependimento é uma mudança de mente com respeito ao pecado e a justiça de Deus. A verdadeira mudança quanto ao pecado não pode ficar meramente na mente, mas será demonstrada na mudança de atitude ou conduta. O homem não somente abandonará o pecado como também irá evitá-lo. Se ele continuar na prática do pecado, como fazia anteriormente, então não há motivos para acreditar que houve um verdadeiro arrependimento quanto a isso.

A graça da humildade produz santidade prática. Aquele que tem consciência da sua própria vileza, indignidade, e pecaminosidade, irá se comportar da maneira mais adequada possível, tanto diante de Deus quanto dos homens. A humildade de coração tem a forte tendência de influenciar nossa vida prática, assim como o orgulho. Se formos humildes, então praticaremos a paciência, a submissão, e a reverência para com Deus. Também seremos mais mansos, amáveis, respeitosos, gentis, de bom trato, contentes, calmos, prontos a perdoar, não egoístas e nem invejosos com as demais pessoas.

A graça do temor de Deus produz santidade prática. A principal idéia quanto ao temor a Deus, é que nós tenhamos pavor de ofendê-Lo, pecando contra Ele. O temor do Senhor é odiar o mal (Provérbios 8: 13). O temor de Deus está frequentemente associado com a prática da obediência. E guarda os mandamentos do SENHOR teu Deus, para andares nos seus caminhos e para o temeres (Deuteronômio 8: 6). De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem (Eclesiastes 12: 13). Deus mesmo fala a respeito de Jó como um sendo um homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal (Jó 1: 8). Na medida em que um homem teme a Deus, ele vai evitar o pecado e ter o objetivo de ser santo.

A graça da gratidão produz santidade prática. A gratidão verdadeira nos leva a retribuir de acordo com o que temos recebido. Se isso é uma verdade em nossos relacionamentos terrenos, quanto mais com relação a Deus. Nenhum homem pode ser verdadeiramente agradecido a Deus pela morte de Cristo, e por sua infinita misericórdia, e ainda assim levar uma vida ímpia. Sua gratidão, se sincera, o levará a ser santo.

A graça da mentalidade celestial produz santidade prática. Por outro lado, uma mentalidade mundana nos conduz ao egoísmo e a prática do pecado. Um homem pode dizer que não está mais apegado as coisas deste mundo, mas se a sua conduta nos mostra que ele ainda ama este mundo tanto quanto antes, e se ele continua relutante em se separar de certas coisas deste mundo, não utilizando seus bens e talentos para fins puros e retos, então ele não dá evidência alguma daquilo que alega ser.

A graça do amor aos homens produz santidade prática. Novamente, a nossa profissão a respeito disso é tão válida quanto a nossa prática. Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações (I João 3: 18-19). Se você conhece um pai que nunca demonstra amor para seus filhos, e que não se importa com o sofrimento deles, e nem faz nada para aliviá-los ou confortá-los, você jamais acreditaria que ele tenha o amor de Deus em seu coração. O amor produz boas obras. O mesmo se aplica à nossa disposição para com o próximo. O apóstolo resume todos os nossos deveres nestas palavras: Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor (Romanos 13: 9-10).

A graça da esperança divina produz santidade prática. A falsa esperança leva a negligência e a licenciosidade de vida. Mas a verdadeira esperança nos incita a servir a Deus diligentemente. E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro (I João 3: 3). A nossa esperança se baseia numa santa felicidade. O autor desta felicidade é santo. O mediador que assegura a nossa felicidade é santo. Portanto, tal como a luz produz brilho, assim também a graça no coração produz a santidade em todas as áreas da vida.

Vamos agora aplicar este assunto à nossa própria vida.

I. ESTA DOUTRINA EXPLICA PORQUE AS BOAS OBRAS SÃO TÃO ABUNDANTEMENTE INSISTIDAS NA PLALAVRA DE DEUS COMO SENDO UMA EVIDÊNCIA DA SINCERIDADE NA GRAÇA.

Nosso Senhor nos ensinou a conhecer os homens pelos frutos (Mateus 7: 16). Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama…Se alguém me ama, guardará a minha palavra…Quem não me ama não guarda as minhas palavras (João 14: 21-24). Cada epístola traz consigo esta verdade. A única evidência satisfatória de que a graça realmente se faz presente em nossos corações são as boas obras. Pela nossa prática nós somos julgados na terra, e através da nossa prática nós seremos julgados no último dia.

II. PORTANTO, VAMOS NOS EXAMINAR PARA VER SE A GRAÇA PRESENTE EM NÓS É VERDADEIRA E SINCERA.

Vamos orar e considerar diligentemente se a nossa vida diária tem uma inclinação real para a santidade. Esta consideração deveria fazer tremer aqueles que possuem uma falsa profissão de fé. Entretanto, é mais provável que os que são justos é que tremam, pois eles são rápidos em condenar a si mesmos. Mas eles deveriam entender que a vida santa que vivem, de acordo com as escrituras, é a verdadeira característica dos Cristãos sinceros, porém, não se trata de uma vida perfeita, sem pecado. Não podemos ignorar que a vida Cristã é cercada de inúmeras imperfeições, mas ainda assim é verdadeira. Para ajudar este auto-exame, faça a você mesmo às seguintes perguntas:

A graça que você professa fez que os seus pecados fossem vistos por você mesmo como algo terrível, pesaroso, e humilhante? Isso o levou a se lamentar profundamente diante de Deus? Você sente um grande pesar quando vê que a sua maneira de viver não é melhor do que aquela que vivia anteriormente? Ao cair em algum pecado, a exemplo de Jó, você se abomina e se arrepende no pó e na cinza? Você, assim como Paulo, lamenta e clama a Deus que o liberte da miséria espiritual do seu velho homem (Romanos 7: 24).

Você habitualmente odeia o pecado? Você não somente se arrepende dos seus pecados passados, mas também odeia pensar nos futuros? Se sim, você os odeia porque eles ofendem a Deus mais do que a qualquer outra pessoa? Você enxerga o pecado como um inimigo mortal? Você vigia constantemente contra isso, assim como José que disse: como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Deus? (Gênesis 39: 9).

Você está plenamente consciente da beleza da santidade prática? Nas palavras do nosso texto, você se regozija na verdade? A lei de Deus é o seu deleite? Ou você considera os Seus mandamentos pesados?

Você se deleita especialmente nos deveres distintivamente Cristãos, e não apenas na moralidade externa? Os filósofos mundanos adoravam exaltar as virtudes morais, a justiça, a generosidade, a firmeza de caráter, e etc. Mas permaneciam distantes da humildade Cristã, da autonegação, da dependência de Deus, e de uma vida de oração e perdão. Você se deleita nestas virtudes que pertencem unicamente ao evangelho, as quais nosso Salvador exemplificou com excelência?

Você tem fome e sede de uma vida de santidade prática? Este é o seu objetivo de vida, seu anseio, e sua oração? Você pensa, come, e respira santidade?

Você se esforça ao máximo para viver para Deus em todos os aspectos? A piedade é apenas acidental em sua vida tão ocupada, ou é a coisa mais importante de sua vida? É o seu interesse maior? Assim como o objetivo de um soldado é lutar, assim também o do Cristão é o de ser como Cristo, ou seja, ser santo como Ele é santo. Você se esforça para ser fiel aos princípios que aprende da Palavra de Deus? Assim como o salmista, você está sempre atentando para todos os mandamentos de Deus (Salmo 119: 6)?

Você tem o desejo de aprender quais são os seus deveres para com Deus? Ou você considera a ignorância uma benção? Você pode dizer as mesmas palavras de Jó: O que não vejo, ensina-me tu (34: 32)? Você deseja conhecer a vontade de Deus a fim de cumpri-la?

Amigo, se você pode responder honestamente a estas perguntas de forma afirmativa, então esteja seguro de que você possui a verdadeira graça, aquela que produz santidade de vida. Ainda que você venha a cair, será levantado novamente pela misericórdia de Deus. Ele começou uma boa obra em você, e a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo (Filipenses 1: 6). Embora você possa ser fraco como o exército de Gideão, fique firme, pois no final acabará sendo vitorioso.

Published inO amor bíblico e seus frutosVida cristã