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A Última Palavra

Há pouco mais de 2 anos, eu sentava ao seu lado no hospital. Meu pai, o missionário Calvin Gardner, já havia lutado com câncer por um bom tempo. Mas agora não por muito mais. O doutor, sempre atencioso, um verdadeiro amigo da família, nos disse que não havia mais solução humana. Era só uma questão de semanas ou – no máximo – um mês e meio. Foi um mês e meio.

Era a minha vez de passar a noite ao seu lado enquanto minha mãe e irmãs descansavam em casa. No canto do quarto, as notícias do dia passavam em uma televisão: em Brasília políticos fizeram X, no Rio houve protesto contra Y e em algum lugar de SP houve mais um tiroteio. Mas esses lugares pareciam distantes. O interior de um hospital é, de fato, um mundo aparte. Tem seu próprio tempo, sua própria linguagem, suas próprias estações.

Eu queria poder dizer que minhas conversas com meu pai durante essas horas foram iluminadas. Ou que experimentei grandes e profundas lições de vida ao lado do seu leito. Na minha infantilidade, até esperava que isso acontecesse. Mas as palavras do meu amigo e professor de seminário Tiago Santos, ditas alguns anos antes em uma das nossas conversas viajantes, refletem bem a realidade dessas horas: “A morte não é natural.” Não é normal. Vai contra o propósito da criação. Ainda que podemos morrer bem, não há boas mortes. Elas todas são cruéis e dolorosas. Elas nos lembram que vivemos em corpos enfraquecidos num mundo caído.

Às vezes lia dos Salmos para ele. As vezes alguns parágrafos de Spurgeon, ou emails de despedida que amigos enviavam. Seu olhar estava distante. Talvez seus ouvidos também. Ele agradecia com uma voz cansada. E depois ficava quieto. Ficávamos quieto juntos. Eu segurava a mão dele, e ele dormia.

Era umas 2h da manhã quando acordei de repente. O quarto estava em silêncio. Em um momento de clareza, meu pai estava com sua mão sobre minha cabeça, e mexia meu cabelo como se eu fosse novamente um garoto de 5 anos. “It’s going to be OK, Daniel,” ele dizia. “It’s going to be OK.” Vai estar bem. Só isso.

Não lembro se eu respondi alguma coisa. Acho que não. Ele voltou a dormir. E eu também. Algumas semanas depois, ele estaria na presença do Seu Criador aonde tudo está infinitamente OK.

Hoje relembro como a morte é uma última tentativa do pecado triunfar. É como se fosse a última tentativa – desesperada – da corrupção deste mundo levantar seu punho contra a glória de Deus e gritar, “Há! A última palavra é minha!

Mas a ressurreição de Jesus Cristo afoga esse clamor. A última palavra não pertence à morte. A última impressão não pertence ao câncer. A última realidade não é aquela da dor e tristeza. No sepulcro vazio do Salvador encontro a esperança da salvação e a certeza da nova vida.

A morte não é o fim porque o fim pertence somente a Jesus Cristo. Ele é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, a fonte de toda vida. Ele é a ressurreição.

Um filósofo dos nossos dias escreveu (repetindo os filósofos de outras eras) que a religião é uma invenção humana para lidar com a dor das nossas vidas. Falamos em um Deus amoroso porque nosso contexto é de ódio. Falamos em paz celestial porque nossa realidade é de caos. Queremos acreditar que em algum lugar tudo faz sentido, tudo faz parte de um plano inteligente porque aqui está uma bagunça sem tamanho.

Essa teoria, talvez, faria mais sentindo se houvesse um contraste absoluto entre os dois mundos: na nossa vida, somente angustia e desolação enquanto na vida por vir somente alegria plena e paz inimaginável. Mas podemos imaginá-la justamente porque – ainda nesta vida – há vislumbres de coisas que que não pertencem a este mundo. Vemos amor, vemos graça, vemos perdão, vemos união e alegria. Os risos das crianças, a compaixão de uma mãe, a irmandade de amigos. De onde vem esses raios de luz? Certamente não surgem da nossa escuridão. Águas limpas não jorram de uma fonte suja. De onde então? Só podem vir de algo além de nós, fora de nós, maior do que nós. É sobrenatural. É a imagem do Deus invisível. É o sepulcro vazio dizendo, “Este mundo não terá a última palavra. Existe algo mais belo. É Jesus, o Filho de Deus. Ele virá, Ele tem vencido.

Em meio à confusão das nossas vidas, é esta calma confiança que o Espírito Santo nos dá: ainda que passamos pela vale da sombra da morte, não tememos mal algum, pois Ele estará conosco. Ele venceu o mundo. Portanto, it’s going to be OK.

It’s going to be OK.

Published inVida cristã

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