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Entendendo a doutrina bíblica da eleição – Parte 2

INTRODUÇÃO

A segunda parte desse livro sobre a doutrina bíblica da eleição consiste na correspondência entre D. Marjorie Bond (viúva) (agora Sra. Milton Moorhouse) e o Dr. Cole. As cartas são auto-explanatórias. Escrevi à sra. Moorhouse e ela graciosamente deu-me permissão para usar as cartas neste livro. Já que os pensamentos de D. Marjorie correm pelos mesmos canais que o resto das pessoas, quanto a questão da doutrina da eleição, decidi deixá-los exatamente como foram escritos na correspondência entre eles. Tirei algumas partes que não pertencem a esta doutrina e deixei o resto, para que ficasse instrutivo e interessante.

O Dr. Cole está agora com o Senhor. Antes de partir desta vida, ele me mandou este material para ver se poderia ser impresso. Creio que este livro será uma grande ajuda para aqueles que, honestamente, estão desejando conhecer o ensino verdadeiro desta doutrina. Deus abençoou ricamente o Irmão Cole, para, que ele pudesse juntar seus pensamentos numa linguagem fácil de ser entendida. É nosso privilégio poder imprimir os escritos do Dr. Cole.

As pessoas que lerem este livro, nossa oração é que possam ver a grandeza de nosso Senhor, e possam ver como Tiago declarou em Ato 15:18: “Que são conhecidas desde toda a eternidade”. Também como Paulo disse em Efésios 1:11: “Conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Nosso coração fica feliz e se regozija pelo fato de Deus me ter escolhido para a salvação. Se não fosse pela doutrina da eleição os batistas teriam usado meios mundanos para me trazer a Cristo. Mas os batistas, em todos os séculos, têm sido missionários, sabendo todo o tempo que todos são responsáveis para vir a Jesus quando o Evangelho é pregado, e ainda sabendo que só os eleitos de Deus serão salvos (João 6:37). Jesus disse em João 10:27: “Minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. A doutrina da eleição fará de nós missionários, porque sabemos que nossa pregação não será em vão no Senhor, mas prosperará naquilo em que foi enviada. Paulo disse: “Portanto tudo sofro por amor dos escolhidos;” II Timóteo 2:10.

Que o Senhor abençoe este livro e faça com que muitos, daqui por diante, possam entender esta doutrina gloriosa e ver que nossa salvação do principio ao fim, é do Senhor, e que todos que O conhecem, louvem-no por Sua misericórdia abundante mostrada a Seu povo.

Alfred M. Gormley, Pastor da Igreja Batista de Bryan Station em Lexington, Kentucky EUA, 26 de Junho de 1968


A CORRESPONDÊNCIA ENTRE DR. COLE E MAJORIE BOND II PARTE

Ao Dr. C. D. Cole
5 de outubro de 1959

Caro Dr. Cole

Apesar de ser uma completa estranha para o senhor, meus pais conheceram o Dr. Shields e recebem regularmente o jornal “The Witness” Como resultado de um dos seus artigos que li há vários anos atrás, sinto que devo escrever-lhe, a fim de poder receber mais luz sobre este assunto de Eleição.

Seu artigo abriu uma linha de pensamento completamente nova para mim. Como a maioria das pessoas, não dei a ele a mínima importância (a princípio), mas fui desafiada por ele, e até mesmo fiquei muito perturbada. Desde então, tenho voltado a lê-lo várias vezes e finalmente este verão comecei a estudá-lo com ansiedade mortal! Li o que pude de Spurgeon sobre este assunto; Dr. Shields, e também pedi emprestado uma cópia da Teologia de Strong, a qual achei um tanto difícil de ler! Em tudo e por tudo tenho me tornado tão obcecada com esta doutrina, que quase não consigo pensar em outra coisa. E ainda há tanto que não entendo. Sei que “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9), e talvez o meu esteja enganado, quando digo que realmente acho que as perguntas que vêm à minha mente não se opõem tanto de uma relutância em admitir a depravação total do homem, quanto o fazem em harmonizar a doutrina com outras passagens da Escritura.

Sempre pensei que eleição e predestinação fossem algo sobre o qual os presbiterianos estivessem um pouco por “fora” (desculpe minha gramática ruim!). Nunca me ocorreu que houvesse tanta evidência sobre ela nas Escrituras, nem que os batistas criam nela! Contudo, sinto que se esta doutrina for ensinada nas Escrituras, como parece que é, então devo aprender mais sobre ela e crer nela, quer goste quer não, e quer entenda completamente quer não.

Minha mente está rodando, como um esquilo numa jaula, até que fico realmente exausta. Quando chega o momento em que penso que a entendo e aceito, Satanás parece levantar novas dúvidas para me atormentar. Isto deixa a gente quase sem fôlego. Depois de ficar à beira da morte, pensar que a gente podia não ter sido eleita! Verdadeiramente, como nunca antes, posso ver que nossa salvação é toda pela graça. Sempre pensei, quando falávamos em salvação, como sendo totalmente pela graça de Deus, o que significa que Seu plano ou idéia de salvar nos era um favor imerecido, já que nada em nós merecia sequer Seu desejo de nos salvar; e também que era um dom o qual nunca poderíamos ganhar por nosso trabalho ou adquirir justiça suficiente para merecê-la. Mas é óbvio que a graça engloba muito mais do que isto. Quando a gente nota que uma pessoa nem mesmo ia querer a salvação, a não ser que fosse eleita, então vemos como somos tremendamente devedores à graça – porque é graça do começo ao fim!

Já pensei algumas vezes se as objeções que sentimos em relação à eleição são dirigidas mais com respeito à idéia da completa soberania de Deus do que em relação à depravação total. Parece ser contra a natureza humana pensar que Deus pode fazer o que Ele quer conosco e não temos nenhum poder de fazer nada sobre isto.

Até hesito em colocar em palavras algumas das objeções que vêm à minha mente, com receio de ser culpada de blasfêmia ou sacrilégio; porque sempre fui ensinada que é uma coisa muito séria criticar a Deus. E ainda, com interesse de clarear meus pensamentos sinto que devo confessar-lhe alguns dos pontos sobre eleição que estão me atribulando e que parecem contradizer outros versículos na Bíblia, e outras doutrinas.

Eu também ensino uma classe bíblica para moças e estamos estudando este assunto (receio que seja um cego guiando outro cego). Vamos ter uma noite de debates sobre eleição no dia 5 de novembro, por isso gostaria de esclarecer alguns pontos em minha própria mente antes deste dia.

Talvez a forma mais fácil para o senhor responder será eu colocar minhas perguntas em forma de pontos:

1. A maioria das pessoas sente imediatamente que a eleição é injusta. Noto, em seu panfleto, e também nas Escrituras, que Deus não deve a nós o salvar ninguém, e por isso Ele tem o direito de dar o dom da salvação a quem quiser. Mas, mesmo assim, o sentimento persiste que se uma pessoa não tem nem mesmo uma chance de aceitar ou rejeitar a salvação, ela “não tem mais chance”, no modo de dizer.

Antes de estudar eleição, sempre pensava que se alguém ficasse, mesmo que remotamente interessado na salvação, então, em resposta às orações de parentes e amigos interessados, o Espirito Santo operaria no coração daquela pessoa e a traria sob convicção ao lugar onde pudesse se decidir a favor ou contra Cristo.

Mas, se só as pessoas que vão aceitar Cristo são as que foram “marcadas na orelha” para a salvação e isto de antemão, então a gente sente que o resto da raça não tem uma chance, nem mesmo a de recusar. Até que ponto elas são responsáveis por serem perdidas?

Uma moça do sul em minha classe, disse-me após a aula: “Se este ensinamento for certo, tudo parece tão sem esperança. Pensei que qualquer pessoa pudesse ser salva; que a decisão era dela. Mas se Deus já decidiu de antemão, ela não tem nenhuma chance, não importa o quanto oremos a seu favor”.

Tentei mostrar que toda a raça humana estava perdida, com ou sem eleição. Que a eleição de alguns não significa que os outros sejam piores de que teriam sido sem a eleição. Mas mesmo assim – com uma parte de mim – sei como esta moça se sente, porque de vez em quando, a despeito de toda minha oração por luz, tenho o mesmo sentimento… que se a gente não é eleito,

não tem nenhuma chance! A gente sente como se toda a questão tivesse sido tirada de nossas mãos e não recebemos a mesma chance dos outros.

Compreendo todo o argumento sobre o governador da prisão também, e concordo com ele com minha cabeça! Mas meu coração continua dizendo que, apesar de ser verdade que um homem não está na prisão porque o governador não o perdoou. mas antes por causa do que fez de errado, todavia a falta de perdão o mantém lá!

Há algum versículo na Bíblia que apoie a interpretação que se não tivéssemos sido eleitos, nunca teríamos o menor interesse na salvação? Sei de Romanos 8:7,8 e também de outras passagens, que em nosso estado natural somos inimigos de Deus. Mas sempre pensei que se o Espírito Santo operasse no coração humano, por exemplo, em alguém que mostra interesse em se tornar crente, então esta pessoa tem uma chance de decidir se quer ser salva ou não. Mas, é evidente, que o Espírito Santo nem mesmo trabalha no coração de alguém que não foi eleito. Há versículos para isto?

2.. Se Deus escolhe só certas pessoas para a salvação, ou capacita só certas pessoas para se beneficiarem para a salvação, então o que a gente faz com versículos iguais a João 3:16? Pensei que Cristo tivesse morrido ‘pelos pecados do mundo inteiro’ (I João 2:2), não só pelos eleitos.

E o que significam versículos tais como “Não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” e também ~ Mas Deus…anuncia agora a todos os homens e em todo lugar, que se arrependam”. Se o homem não tem poder para se arrepender se não for eleito, e Deus não o elegeu, como este homem é responsável por não obedecer o mandamento de Deus para se arrepender; e, além do mais, como se pode dizer que Deus não está disposto a que nenhum pereça, se Ele não capacita todos para serem salvos?

3. Como o senhor explica o fato de que, às vezes, uma pessoa mesmo sob grande convicção decida-se contra a salvação? Ela era ou não eleita? Meu pai, que morreu em julho passado, era um grande cristão leigo e médico, o qual levou muitas almas a Cristo em seu consultório e pela pregação leiga. Ele me contou uma história que tinha lido ou um testemunho – não me lembro bem o que foi. Mas uma moça assistiu várias vezes as reuniões de uma conferência de reavivamento, noite após noite, e parecia estar profundamente tocada. Na realidade ficou claro ao pregador que ela estava sob profunda convicção. Na última noite, quando o apelo foi dado, ela saiu do seu lugar e retirou-se do edifício. Um obreiro a seguiu e ouviu-a dizer, olhando as estrelas: “Não quero ser crente. Por que não me deixa em paz. Gosto de minha vida do jeito que é, e não estou preparada para mudar meu jeito de viver. Por favor, Espírito Santo, deixe-me em paz e não me aborreça. E com uma risada de gelar os ossos ela desapareceu na noite. Esta moça foi morta num acidente poucas horas depois, se não me falha a memória.

Então, o que quero saber é isso: ela era eleita? E se não, como pôde sentir tal convicção para começar? O Espírito Santo perde tempo, no modo de falar, convencendo alguém do pecado, mas com quem Deus nem mesmo elegeu? E se era eleita, por que não atendeu o apelo? Pensei que a eleição significas se que a pessoa tinha que ir à frente, quer notasse que não. É possível que certas pessoas sejam escolhidas para a salvação, mas por sua própria vontade, a rejeitem?

4. Também, por favor, explique o versículo “muitos são chamados, mas poucos os escolhidos”. Se quer dizer “muitos são chamados, mas poucos aceitam”, posso entendê-lo. Mas não sei qual a diferença entre ‘chamar’ e ‘escolher’. Para mim parecem a mesma coisa.

5. Finalmente, a despeito de todos os argumentos ao contrário, encontrei-me em meio a um tipo de atitude fatalista – e que tiver de ser, será. Talvez isto se deva mais às minhas leituras sobre a soberania de Deus, do que sobre a Eleição.

Mas pergunto a mim mesma: “Se Deus tem um plano para cada indivíduo e cada nação; se Ele ordena os poderes à existência e se põe e depõe os reis, etc.; se Ele é completamente Soberano, então Ele vai executar Sua vontade, não importa os esforços de Satanás para impedi-lo, ou a falha do homem por sua parte.

O senhor diz que porque Eleição é um assunto secreto, temos que testemunhar de qualquer maneira e deixar os resultados para Deus. Está certo. Mas, por outro lado, não posso ver o que importa sabermos ou não, já que Deus conhece quem é eleito e Ele salvará a pessoas quer façamos nossa parte ou não. Só porque deixo de testemunhar, Deus não vai ser impedi do em Seu desígnio de salvar certas pessoas. O próprio fato de Deus as ter escolhido é suficiente para assegurar que serão salvas, quer testemunhemos ou não, pela simples razão de que Deus é Soberano e já as elegeu para a salvação. Concordo que não sei quem é eleito e quem não é. Mas não preciso saber. Estas pessoas serão salvas de qualquer jeito, se esta é a vontade de Deus.

Li na Teologia de Strong que nossas orações nunca vão fazer Deus mudar de idéia. 0 princípio é que, enquanto crescemos em nossa experiência crista e vivemos mais perto de Deus, vamos aprender a orar pelas coisas que estão de acordo com Seu propósito para nós; portanto Ele pode responder nossa oração!

Mas me pergunto novamente: Se Ele tem planos para os indivíduos e nações, eles serão trazidos a Cristo sem nossas orações. Se for assim, então, o que pensamos ser resposta às nossas orações são só o cumprimento de um plano divino, que teria sido realizado muito bem sem nossa oração. Mas, como não podemos ver o futuro, pensamos que convencemos Deus e por isso dizemos que Ele nos respondeu. Mas, já que Ele planejou um certo curso para nós, isto acontecerá do mesmo jeito, de qualquer maneira. 0 senhor entende o que quero dizer?

Sempre pensei que, de uma certa forma, nós convencíamos Deus, contanto que não pedíssemos alguma coisa fora de Sua vontade – quero dizer com isto: Seu prazer ou vontade consentidos, em vez de um plano premeditado e fixo. Acho que pensei, por exemplo, que se um ente querido ficasse doente e o Senhor n30 tivesse uma decisão real feita de que era o tempo desta pessoa morrer, Ele pouparia a vida dela em resposta à oração. Mas, de acordo com a soberania, a razão pela qual Ele poupa é simplesmente porque ainda Deus não quer que ela morra, portanto minha oração não tinha nada a haver. A pessoa ficaria boa de qualquer jeito, se este fosse o plano decretado por Deus, ou então morreria se este fosse Seu plano.

Se a oração não faz Deus mudar de idéia, então de que adiantaria Abraão interceder por Sodoma e Gomorra? Deus teria salvo os 50, ou 40 ou 10 de qualquer jeito, se fossem encontrados. E também para que Moisés intercedeu por Israel? Deus tinha um plano para Israel e Ele o executaria, quer Moisés orasse ou não. Por que Moisés e nós oramos então, por alguma coisa que vai acontecer, quer oremos ou não?! Para mim, isto destrói o propósito total da oração, e faz com a gente quase se sinta enganada ao pensar que faz alguma coisa através da oração, quando na realidade tudo já estava decretado de antemão.

Por exemplo: no caso do orfanato de Mueller. Deus tinha um plano para que esse trabalho fosse executado, já que Ele é Soberano. Se a oração não conta nada para com Deus, quero dizer para influenciá-Lo, então aquele caminhão de leite teoria dado o prego em frente ao orfanato (suprindo assim todas aquelas crianças com o leite necessário) quer Mueller tivesse passado a noite de joelhos ou não? De acordo com os teólogos não foram as orações de Mueller que resultaram no aparente suprimento miraculoso de leite para o orfanato, mas era só parte de um plano que teria sido realizado de qualquer modo, quer Mueller tivesse passado a noite dormindo ou orando. Não compreendo isto. Para mim, tal raciocínio contradiz Tiago 5:16 e outros que ensinam a importância da oração. As vezes fico pensando se o problema não está na interpretação que os homens dão às Escrituras, em vez de ser com a própria Escritura.

Esta é uma carta terrivelmente comprida. Peco-lhe desculpas por ser tão faladeira. Mas este assunto é muito vasto, eu acho, para ser discutido por correspondência. Como desejaria poder sentar-me e conversar com o senhor!

Estou guardando uma cópia desta carta, para que possa recorrer a ela quando sua resposta chegar. Espero que o senhor não pense que estou lhe impondo alguma coisa; mas seu panfleto realmente mexeu comigo. Posso ver onde a eleição é sem duvida uma doutrina maravilhosa, se não parecesse contradizer outros versículos das Escrituras.

Espero e oro que o senhor possa me dar mais luz, e que não se sinta ofendido com uma carta tão longa de uma estranha.

Agradeço-lhe desde já, de coração, sua resposta.

Sinceramente, Marjorie Bond

Madisonville, Kentucky

Resposta:

Calgary, Alberta, Canadá 20 de outubro de 1959

Cara senhora:

Saudações no Nome dAquele cujo Nome é sobre todo nome! Sua carta datada do dia 5 próximo passado foi recebida pontualmente. Ela não podia ter-me encontrado mais ocupado, sendo este o motivo de minha demora em responder. Sou o secretário da Associação Batista Betel e sua carta chegou bem no primeiro dia da nossa reunião anual. Havia muito trabalho para preparar para a reunião, durante os dias dela, e muito mais trabalho para colocar o material nas mãos de impressor. Pensei logo em escrever uma cartinha breve contando a situação e prometendo responder-lhe devidamente o mais depressa possível. Então ocorreu-me que podia aproveitar o tempo na esperança de resolver o assunto, antes que o tempo mencionado pela senhora se esgotasse. Acredito que a senhora não vai considerar minha demora como uma evidência de indiferença de minha parte. Além disso, devido a doenças da idade, não tenho mais capacidade para o trabalho que tanto gostava de fazer.

Primeiro de tudo, deixe-me cumprimentá-la por sua atitude honesta, com respeito à doutrina da ELEIÇAO e assuntos relativos; e também pela sua compreensão destas doutrinas. Quase nunca recebo uma carta tão bem escrita, sobre qualquer assunto. A senhora colocou seus problemas em uma perspectiva clara, o que torna mais fácil lidar com eles. Posso responder com passivamente, porque seus problemas são também os meus. Gostaria muito de resolvê-los para a senhora, mas temo que meus esforços a desapontem.

Creio que a senhora está excessivamente perturbada por causa de sua incapacidade de harmonizar tudo o que está na Bíblia. Este Livro é a revelação do Deus Infinito, e a mente finita não pode entender com perfeição a tudo quanto Deus revelou. Poder fazer isto seria um argumento contra a Bíblia como inspirada por Deus, e reduzi-la a uma mera produção humana. Portanto, a determinação de harmonizar contradições aparentes é com certeza o resultado de uma das três coisas encontradas na vida real. Ou se quer ignorar a Soberania de Deus por um lado, ou a responsabilidade do homem por outro lado, ou também ser atormentado com uma mente perturbada como a senhora confessa sentir. De um lado encontram-se os tão chamados Batistas Primitivos (Fatalistas), que não podem conciliar a incapacidade humana com responsabilidade ao assunto de arrependimento e fé. Por isso enfatizam as doutrinas da Soberania, dos decretos divinos e incapacidade do homem, e ignoram as Escrituras que mandam que os pecadores se arrependam e creiam no Evangelho, portanto não tendo nenhum Evangelho para o perdido. Por outro lado, há os que pregam as doutrinas da responsabilidade humana e o mandamento para se arrepender e crer, mas que não têm nada a dizer sobre a incapacidade do homem, os decretos divinos e Soberania. Aqui em minha própria igreja e associação, tão bem como por todo o sul em geral, ouve-se pouco sobre Eleição, Depravação e Soberania na salvação. Isto porque os irmãos sentem que não podem pregar a ambos; que os dois são além da reconciliação – se um é verdadeiro o outro tem que ser falso. Mas em seu caso tanto há determinação em aceitar toda a Escritura, como harmonizá-la, o que resulta numa mente confusa e perturbada. Vamos, com o risco de sermos chamados inconsistentes, aceitar tudo o que está nas Escrituras, quer possamos harmonizá-lo ou não. O Dr. J. B. Moody (um dos meus pais na fé) dizia que se a gente esperasse aceitar as doutrinas, até que pudéssemos harmonizá-las, nunca as aceitaríamos. A maneira de harmonizá-las é recebê-las sem questionar, e elas se harmonizarão lá dentro, em sua alma. Talvez isto não seja exatamente verdade, mas será de muita ajuda. Não estou dizendo que não devemos nos esforçar para harmonizar o que parecem ser doutrinas contraditórias, mas sim avisá-la de não ter uma determinação persistente para fazer isto. Com esta introdução vou agora responder suas perguntas pela ordem.

1. É verdade que a maioria das pessoas (eu diria todas) sente que a eleição é injusta. Isto não é de estranhar, já que a mente carnal é inimizade contra Deus. As pessoas podem amar um deus inventado por elas, mas só os crentes nascidos de novo podem amar um Deus Soberano, que faz o que quer com os Seus. I João 4:7. Os direitos de Deus com a raça humana pecadora são os mesmos de um oleiro com o barro. Podemos ver prontamente que o criminoso não tem o direito de reclamar diante de um júri humano. E é tão justo quanto verdadeiro que o pecador não tem o que reclamar diante de um Deus ofendido. Portanto, dizer que a eleição é injusta, é colocar a salvação na base da justiça, tirando assim qualquer esperança de cada pecador.

Quando encontramos pessoas que parecem se interessar na salvação, temos a tendência de pensar que são eleitas, porque os eleitos não são salvos sem se interessarem na salvação. E quando oramos pela salvação delas, não estamos pedindo ao Espírito Santo que as coloque numa cerca onde possam cair de um lado para outro. Elas já estão do lado errado – a atitude da rejeição, por ignorância, a Cristo – e oramos para que Ele possa tirá-las do reino das trevas para o reino de Seu Filho querido, Col. 1:13. Oramos por sua conversão, pela fé em Cristo, para que não sejam deixadas à escolha de uma natureza depravada, porque Ele não convence nem converte todo mundo a quem pregamos e por quem oramos. É um direito de Sua soberania e não de Sua fraqueza. Não oramos a um Deus fraco. Contudo, devemos fazer distinção entre o desejo de ser salvo do pecado e o desejo de ser salvo do Inferno. Ninguém quer ficar queimando, mas o desejo de ser salvo do pecado é santo e criado pelo Espírito Santo. E quando Ele cria tal desejo, Seu trabalho de conversão seguirá além. Mas não podemos determinar com segurança o motivo do desejo.

A senhora pergunta até onde eles (os não eleitos) são responsáveis por serem perdidos. Eles são responsáveis por todos os pecados que cometeram e também por sua natureza pecaminosa. O que uma pessoa faz é uma revelação do que ela é Isto não é aparente ao nosso senso de justiça. Não posso ver como Deus pode justamente me fazer responsável pelo exercício de uma natureza herdada – uma natureza que nada tive a haver para adquiri-la e com a qual nasci. Se eu fosse me sentar para julgar a Deus (pereça tal pensamento) diria que não é justo punir-me por uma natureza pecaminosa que herdei. Aceito minha responsabilidade pelo pecado, mesmo que não possa entender a justiça dele. Aqueles que não têm sido “marcados na orelha” para a salvação, caem em dois grupos – os que ouviram o Evangelho pregado a eles e os que nunca ouviram falar de Cristo como Salvador. Os que já ouviram o Evangelho são responsáveis por todos os seus pecados, inclusive o de rejeitar a Cristo; os que nunca ouviram sobre Ele são livres do pecado de rejeitá-Lo, apesar de serem responsáveis por outros pecados pelos quais serão considerados culpados. Os pagãos que nunca ouviram o Evangelho não terão que responder pelo pecado da descrença. Quer entendamos isto ou não, o pecador em toda a sua depravação e incapacidade é responsável diante de Deus.

A senhora em sua classe que fez a observação de que a doutrina da eleição torna tudo sem esperança, acrescentando que pensava que todos podiam ser salvos; que a decisão era “deles”, pode ser respondida assim. Pode ser salvo aquele que está disposto a ser salvo pelo caminho de Deus pela fé em Cristo, mas ninguém, por sua livre e espontânea vontade, quer ser salvo assim. O caminho de Deus é tolice para ele. I Cor. 2:14; II Cor. 4:3-6; Rom. 10:1-3. A decisão é “deles”, mas a decisão de confiar em Cristo é o resultado de uma mente renovada – o resultado da graça na alma. Paulo fala do tempo quando ele pensava que devia fazer muitas coisas contra o nome de Jesus de Nazaré. Atos 26:9. E ao contar sua conversão ele a atribui à graça de Deus. I Cor. 15.10; Gál 1:14-16. Não há auto salvação, nem na providência nem na aplicação O trabalho do Espírito em nós é tão essencial como o trabalho de Cristo por nós. Paulo diz que os judeus pediam um sinal (queriam que ele fizesse um milagre), e os gregos clamavam por sabedoria (queriam que ele filosofasse), mas sem agradar a vontade de nenhum dos dois, ele pregou a Cristo crucificado A salvação pela fé no Cristo crucificado era para o judeu natural um escândalo, e para o grego uma bobagem. Mas, os eficazmente chamados pelo Espírito Santo podiam ver o poder e a Sabedoria de Deus no plano da salvação. I Cor. 1:22-31. Por que Deus não chama mais do que Ele o faz, deve-se não a incapacidade, mas a soberania. Como disse no meu artigo sobre eleição, ou limitamos o poder de Deus ou Sua misericórdia, ou passamos de malas e bagagens para o universalismo. Se Deus está tentando salvar todo mundo, mas não é bem sucedido, então Ele não é Todo-Poderoso; se Ele não está tentando salvar todo mundo Sua misericórdia não é universal. Rom. 9:18 torna claro que Sua misericórdia é limitada e é soberanamente concedida. Merecer misericórdia é uma contradição de termos. E a carne em nós – restos da depravação – se rebela a este aspecto da soberania divina. E o escritor está ciente disto, como a senhora também parece estar.

2. Há passagens como João 3 16 e I João. 2:2 que parecem ensinar que Cristo morreu por cada indivíduo. Contudo, a palavra “mundo” raramente significa cada indivíduo da raça humana. A palavra “mundo” às vezes, é usada para distinguir o salvo do perdido (I João. 5:19); o judeu do gentio (Rom. 11:11-15) e os poucos dos muitos (João 12:19). Creio que João 3:16 e I João.

2:2 ensinam que Cristo morreu tanto pelos gentios como pelos judeus. Ele morreu pelos homens como pecadores e não como qualquer classe ou tipo de pecadores. Os judeus pensavam que seu Messias, quando viesse, os livraria e destruiria os gentios. Mas João diz que Ele é a propiciação para todos os crentes, independente de classe ou cor. Em outras palavras: Cristo não é um salvador de uma tribo. Se pensarmos na morte de Cristo como substituta, então concordo com Spurgeon, que Ele morreu só pelos eleitos. Se Ele morreu como substituto por cada indivíduo, então cada indivíduo deve ser salvo, ou então Sua morte foi em vão. Mas creio que há um sentido no qual a morte de Cristo afeta cada pessoa. Por sua morte Ele comprou a raça humana, não para salvar cada indivíduo, mas a fim de dispor de cada indivíduo. 0 direito de julgar este mundo é a recompensa de Cristo por Seu sofrimento. Todo juízo foi confiado ao Filho. João. 5:22. Na parábola do tesouro escondido, Cristo é o homem que comprou o campo (mundo) por causa do tesouro (o eleito); por causa daqueles dados pelo Pai. Mat. 13:44. Veja também João 17 e Pedro 2:11. Casualmente a palavra para Senhor em II Pe. 2:1 é Déspota (do grego “despotes”), e indica mais autoridade do que Kurios (Senhor).

Em II Pe. 3:9, o apóstolo está explicando porque o Senhor ainda não voltou à esta terra, e a razão é, que Ele não quer que nenhuma alma pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. Isto se refere à Sua vontade de propósito. É o propósito de Deus que todos se arrependam e sejam salvos. Com longanimidade Ele espera até que todos os escolhidos sejam trazidos ao arrependimento. Os escolhidos são descritos como aqueles que obtiveram a tão preciosa fé (1:2) que receberam todas as coisas que pertencem à vida e à santidade (1:3); e escaparam da corrupção que está no mundo (1:4)~ Em Pe. 3:15 o apóstolo diz aos mesmos “para conosco”, que eles devem considerar a grande benignidade do Senhor como salvação. A benignidade de Cristo para com os eleitos 0 mantém em Seu trono mediatório, até que todos sejam salvos. Se Ele viesse mais cedo que o planejado, muitos dos eleitos não seriam salvos. Sou crente há 51 anos, e se Ele tivesse vindo antes da minha conversão, eu teria perecido em meus pecados. Não é Sua vontade de propósito que nenhum dos que o Pai Lhe deu pereça. As palavras “todo” e “cada” dificilmente são usadas no sentido absoluto. Veja Mat. 3:5-7; I Cor. 4:5. O “todos” de II Pe. 3:9 são todos os “para conosco” que serão trazidos ao arrependimento. Esta não é uma gramática boa, mas é uma ótima teologia, necessária à clareza. Cristo não virá para julgar, até que todos que o Pai Lhe deu se arrependam. E quando Ele vier introduzirá a nova era do “novo céu e nova terra”. onde habita a justiça.

3. A história que seu pai contou já aconteceu em muitos casos com pessoas que pareciam estar sob profunda convicção, mas ainda se opõem aos que tentam guiá-las a Cristo. Tal convicção não é de Espírito Santo, que convence do pecado da descrença e guia à fé em Cristo. Tais casos revelam o fato da inimizade da mente carnal para com Deus, e não uma mente tocada pelo Espírito Santo. Um caso a citar é o de Félix que tremeu ao ouvir Paulo pregar, e então o despediu até uma época mais conveniente. Atos 24:25.

Há uma convicção natural do pecado que pode ser sentida por todo mundo, quando confrontado por seus pecados (João. 8:9), e há a convicção evangélica pelo Espirito Santo, que leva ao arrependimento e fé. Deus nunca abandona a boa obra que Ele começa na alma. Fil. 1:6. 0 Espírito Santo, nunca tenta regenerar um dos não eleitos. Há muitos versículos na Bíblia para isto. 0 Novo Testamento fala freqüentemente daqueles dados ao Filho pelo Pai, e a salvação deles é assegurada. Eles são chamados “ovelhas” e “eleitos” antes mesmo de virem a Cristo. João. 6:37-44; 10:14-16; 25-28; II Tim. 2:10.

Você perguntou se aquela moça era eleita” ou não. Não sei. Só posso dizer que naquele momento ela não deu nenhuma evidência de ser eleita. Contudo, mais tarde, ela pode ter sido convencida pelo Espirito Santo do pecado da descrença e ter chegado ao arrependimento. Só podemos julgar se uma pessoa é eleita ou não por sua atitude para com o Evangelho de Cristo. Se ela era uma ovelha de Cristo, ela veio a Ele em outro dia, mais tarde, pois Cristo diz: “Minhas ovelhas ouvem minha voz, eu as conheço e elas me seguem”.

4. “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. (Mat. 20:16; 22:14). “Chamar” no Novo Testamento geralmente significa a chamada eficaz para a salvação os Santos são feitos por uma chamada divina, mas este não é o significado das passagens acima. Significa obviamente que muitos que ouvem o convite para aceitar Cristo não foram escolhidos por Deus para a salvação. I Tess. 1:4-7; II Tess. 2:13. Chamar e escolher não são a mesma coisa. Escolher ou eleger aconteceu na eternidade passada; chamar acontece no tempo e produz conversão à fé em Cristo. Há uma chamada geral dada a cada pecador na pregação do Evangelho, e há a chamada especial do Espirito Santo, a qual induz a aceitação da chamada geral. A chamada geral na pregação do Evangelho é para os homens como pecadores; a chamada especial pelo Espírito Santo é para o eleito e resulta em salvação. Rom. 8:28 se refere a esta chamada eficaz. Veja também I Cor. 1 :26; Gal. 1: 15-16.

5. A senhora se queixa de estar “presa a um tipo de atitude fatalista – “o que tiver de ser, será”. Há uma diferença enorme entre uma coisa fria e impessoal chamada “destino”, e as obras providenciais de um Deus grande e sábio. As coisas não acontecem friamente pelo destino, mas por Deus “que faz todas as coisa, segundo o conselho da sua vontade”. (Efésios 1:11) . Perguntaram uma vez ao Dr. Charles Hordgesse se ele cria que o que há de ser será. Ele respondeu: “E claro que sim. Você quer que creia que o que há de ser, não será?” A profecia é a predição divina de muitas coisas que vão acontecer e estas predições já aconteceram ou ainda vão acontecer.

0 segundo parágrafo de sua carta sobre este assunto expressa uma vontade gloriosa. Deus está regendo este mundo, fazendo até que a ira do homem 0 louve; o resto do que a ira do homem pode fazer, Ele reprime. Salmos 76:10; Prov. 21:1.

Referindo-me ao terceiro parágrafo de sua carta, na página 33, é verdade que o eleito será salvo, e que minha falha em testemunhar não vai afetar o propósito de Deus de salvá-lo. Deus me usa, mas Ele não depende de mim. Não me atrevo a pensar que Deus seja um inútil sem mim; se eu falhar Ele pode usar outra coisa. Não devo testemunhar por causa de qualquer resultado assegurado, mas em obediência à Sua ordem de comando. Não posso saber Seu propósito em relação às pessoas as quais vou testemunhar. Temos que testemunhar às pessoas como pecadoras e não como a pecadores eleitos. A eleição não tem nada a haver com nossa obrigação de testemunhar. Isaías pregou, mesmo sabendo que não haveria nenhum resultado por parte do povo. Is. 6:8-13.

Sua carta termina com perguntas feitas em relação à oração. Não tenho esperança de ser de muita ajuda aqui, mas vou fazer algumas observações. A oração é um dos meios pelos quais Deus faz o que Ele decretou. A oração respondida é redigida pelo Espírito Santo. Ele conhece a mente e a vontade (propósito) de Deus, e faz intercessão por nós, de acordo com a vontade de Deus. Rom. 8:26-27. Como alguém pode saber que sua oração é redigida pelo Espírito Santo, não posso dizer. Mas o Espirito Santo nos guia a orar por aquilo que está dentro do círculo da vontade divina, e se pedimos uma coisa de acordo com Sua vontade Ele nos ouve. I João. 5:14. Já aprendemos que devemos orar, para que a vontade de Deus seja feita. Isto mostra que não estamos tentando mudar Sua vontade com nossa oração. Isto tomaria o controle de Suas maos e nos colocaria na liderança.

Quer possamos harmonizar nossa oração com Seus decretos ou não é nossa responsabilidade orar porque Ele manda isto. Lucas 18:1. A oração implica em duas coisas: nossa incapacidade é Sua capacidade. A oração é um ato de dependência em Deus que “é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos”. (Efés. 3:20).

Presumo que não posso conciliar a doutrina dos decretos divinos com tais passagens como Tiago 4:2,3 e 5:16. Mas posso ver como a oração pode prevalecer sem mudar a Deus, quando penso nela como um dos meios pelos quais Sua vontade de propósito é afetada. No caso de Mueller, acho que ele foi guiado pelo Espírito Santo para passar a noite de joelhos, como o meio de conseguir o leite para as crianças. Temos a mesma dificuldade no caso do naufrágio do navio de Paulo, o qual está registrado em Atos 27. Quando toda a esperança de salvação tinha desaparecido (27:20) o anjo de Deus disse a Pedro que nenhuma vida se perderia. Ele então conforta os marinheiros desesperados, soldados e prisioneiros, dizendo: “Tende bom animo, porque creio em Deus, que há de acontecer assim como a mim me foi dito” (27:25). Depois, quando os marinheiros estavam quase para abandonar o navio, Paulo disse ao centurião e aos soldados: “Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos” (27:31). Deus havia declarado que nenhuma vida se perderia, e Paulo creu nEle, mas ao mesmo tempo cria que a segurança de todos dependia em que os marinheiros ficassem no navio. Podemos acusar Paulo de inconstância, mas está escrito!

Quanto a orar pelos doentes, devemos sempre orar sem saber qual seja a vontade de Deus em cada caso em particular. Está ordenados aos homens morrerem uma vez, e quando esta hora chegar, nossa oração não vai cancelar a vontade divina. Davi reconheceu isto ao orar por seu filho doente. Ele jejuou e orou, enquanto a criança estava viva, mas quando ela morreu, ele curvou-se à vontade manifesta de Deus e disse “Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim e viva a criança?” (II Sam. 12:22). A oração de Paulo para que o espinho fosse removido é outro caso de pedir por uma coisa fora do círculo da vontade de propósito de Deus Paulo orou sem saber a vontade de Deus, e quando soube, que a graça suportava seria dada em vez da retirada do espinho, ele curvou-se numa doce submissão e disse: “De boa vontade pois me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (II Cor. 12:9).

Minha mente sempre se volta para a terrível guerra entre nosso Norte e Sul – a tão chamada “Guerra Civil”. Havia homens de Deus em ambos os lados – homens de piedade e oração – que imploravam à Deus pela vitória. Creio que se afirma que os homens de Deus mais notáveis pertenciam ao Exército do Sul – tais como: Robert E. Lee, Stonewall Jackson e Robert E. Johnston. E agora todos nós exaltamos que tenha sido da vontade de Deus, que a União fosse salva.

É próprio para todos nós procurarmos a face do Pai e orar por suas bênçãos, e então curvar-nos em acordo à Sua providência misteriosa em nossas vidas.

“Deus tem a chave do desconhecido, e eu sou feliz;
Se outras mãos a segurassem,
Ou se Ele a confiasse a mim,
Podia ficar infeliz’!
“E se os cuidados do amanha estivessem aqui
Sem descanso!
Prefiro que ele abra o dia;
E quando as horas vibrarem, dizer:
‘Minha vontade é melhor’.
“Até a escuridão de minha vista
Dá-me segurança;
Porque tateando em meu caminho escuro;
Sinto Sua mão; e O ouço dizer:
‘Minha ajuda é certa’.
“Não posso ler Seus futuros planos;
Mas uma coisa eu sei;
Tenho o sorriso de Sua face,
E todo o refúgio de Sua graça,
Enquanto estiver aqui.
“Basta! Isto cobre tudo o que quero,
Por isso descanso!
Porque onde não vejo, Ele vê,
E sob Seus cuidados estarei seguro,
E abençoado para sempre”.
(Tradução livre)

Todos nós somos pobres pecadores precisando de um Salvador capaz. Este Salvador é o Senhor Jesus Cristo que diz: “E o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João. 6: 37). Se Cristo é o Salvador dos pecadores, este pobre pecador pode se qualificar para a salvação. Eu O louvo por morrer por mim, e louvo o Espirito Santo por me fazer notar minha incapacidade e por tirar as coisas de Cristo e manifestá-las a mim, João. 16:14,15.

Que o Senhor a abençoe no debate do próximo dia 5 de novembro, e a faça uma bênção para os outros. Desejaria ter sido mais útil nas respostas às suas perguntas Deixe-me exortá-la a não se preocupar com a falha de poder conciliar doutrinas que parecem ser contraditórias às nossas mentes finitas.

Com sinceros agradecimentos por esta oportunidade de discutir com a senhora algumas das coisas profundas de Deus.

Sou seu, pelos laços do Evangelho,

C. D. Cole

2ª carta

6 de novembro de 1959

Caro Dr. Cole:

O senhor acha que pode agüentar outra carta minha? Vou tentar não escrever muito desta vez!

Sua carta maravilhosa, e mais do que útil, chegou faz duas semanas; então pode ver que com bastante tempo para nossa reunião de ontem à noite. Tive vontade de responder na mesma hora; mas resolvi esperar até depois da reunião para que pudesse ‘matar dois coelhos com uma cajadada” – como se diz. Obrigada por sua carta e pela reunião também.

Não posso dizer-lhe o quanto apreciei o tempo e problema que teve para ajudar a uma completa estranha – e ainda, talvez, não sejamos estranhos afinal de contas, já que somos parentes através do Evangelho. Mas o senhor trabalhou muito, eu acho, para responder aquela carta tão comprida e com tantos detalhes. Muitíssimo obrigada. Acima de tudo devo-lhe minha eterna gratidão pelo seu artigo sobre Eleição, o qual despertou meu interesse e subseqüente estudo. Sinto como se um novo mundo se tivesse aberto para mim; não pode imaginar como me sinto, Dr. Cole. Espero que não seja errado dar tanta importância a este assunto, mas de qualquer modo sinto como se fosse a doutrina mais significaste e pessoal na Bíblia inteira. Sei que nada pode ofuscar o sacrifício expiatório de Cristo, mas sinto que até mesmo minha conversão, nunca fez tanta impressão em mim quanto a Eleição. Quando a gente é cria da num lar cristão, ouvindo as Escrituras desde pequena e sendo ativa na Igreja, não há uma distinção marcante, como a que acontece com alguém que se torna crente depois de uma vida de vícios. É por isso que não sentimos, no mais profundo do nosso ser, que não precisamos tanto de Cristo, como estas outras pessoas?

Não sei, mas muitas vezes sentia que não tinha a alegria que devia ter em minha vida crista. As vezes ela parecia antiga e formal; parecia que eu fazia as coisas para o Senhor como se por obrigação. As vezes até ficava duvidando se era salva ou não. Agora tudo mudou. O próprio fato de que minha salvação é toda pela graça – tanto na aplicação quanto na provisão – transformou tudo para mim. E tenho que agradecer ao senhor por isto. Como deve ser maravilhoso ser um pastor, para ser usado assim por Deus!

Quando li seu panfleto a primeira vez, em adição a todas as minhas outras objeções em relação à Eleição, não gostava da idéia de que (num sentido) não tinha nada a haver em ter-me tornado crente. Achava que com a ajuda do Espírito Santo, eu tinha bastante juízo e inteligência para reconhecer uma coisa de valor e tê-la para mim! Nunca parei para pensar que se não tivesse sido eleita, realmente não podia fazer nada para me salvar – nem mesmo aceitá-la. Mas agora, esta é quase a melhor parte dela! Faz-nos humildes, nos tira a respira são, amedronta e emociona, tudo de uma vez. Não consigo afastar-me disto, Dr. Cole. Pensar que todos estes anos (tenho 41 agora) perdi este ensinamento tremendo e a emoção dele! A Eleição fez minha salvação e conversão mais real e pessoal. Sempre invejava as pessoas que falavam com tanta alegria de sua conversão, e sentia que alguma coisa acontecera com eles e comigo não. Não consigo me lembrar de um tempo em que não cri, acho que o senhor entende o que quero dizer. E isto me preocupava Tinha um medo horrível de que talvez tudo para mim não passasse de uma crença de cabeça ou uma crença na crença, por ter sido criada num lar cristão e aceito aquilo, como fazia com os outros padrões de comportamento e pensamento. Orei muito durante meses pedindo ao Senhor que eu fosse salva e que Ele me fizesse notar isto, sem sombra de dúvida, e que me desse “a alegria de Sua salvação” e não mera ortodoxia.

Jamais sonhei em conseguir o “Testemunho do Espírito” através da doutrina da Eleição. Não quero que meu Senhor pense que não sou grata pela salvação. Sou, mas agora mesmo, sinto como se fosse mais grata pela eleição. Será que isto é errado?

Fico dizendo a mim mesma várias vezes, como salva de um navio naufragado, quando os outros morreram: “Por que eu? Porque A Il. Quando acordava de manha, sentia-me cansada e exausta e queria não ter que ir trabalhar (sou viúva, meu marido morreu na guerra); agora, ainda bem não acordo, sinto como se algo novo e encorajador tivesse acontecido e então passa na minha lembrança como um relâmpago…”você é eleita”, e isto me faz tão feliz, que acordo por completo na mesma hora, pronta para o novo dia.

Não posso me explicar direito – mas parece que quando a gente acha que teve pelo menos a mínima parte na conversão, isto tira quase toda a emoção e beleza dela. Mas quando o impacto do pensamento e a realização dele atinge você em cheio – que não só a provisão da salvação se deve a graça de Deus, mas também Ele ter escolhido você como recipiente, a única coisa que podemos fazer é nos maravilhar – perdidos em espanto, amor e louvor.

E agora vou lhe falar sobre ontem à noite. Havia mais ou menos 30 mulheres. Nada do que já estudamos em 7 ou 8 anos e que ensinei a esta classe mexeu tanto com elas quanto esta doutrina! Elas trouxeram Bíblias, canetas…e objeções! Revisei tudo com elas com muito cuidado, lembrando que:

(a) A depravação do homem a exigia (eleição) – trabalhando em seu ponto de que nos enganamos a nós mesmos, se acharmos que qualquer um de nós podia querer e procurar Deus em nosso estado não regenerado, à parte do Espírito Santo e da eleição. (Gên. 6:5; Salmo. 14:3; Is. 64:3; Rom. 3:10 e Efés. 2:1 – fiz com que elas procurassem e lessem estas referências em vez alta).

(b) A soberania de Deus a justifica – Ele tem sobre nós os mesmos direitos que o oleiro com o barro, etc., enfatizando tais qualidades de Deus como Sua Justiça absoluta, Santidade, Onisciência, Auto-Existência, etc., o que Lhe dá o direito de agir de maneira soberana.

(c) A Justiça e Santidade de Deus a salvaguardam; não pode ser injustiça de Deus, pois é absolutamente impossível que Ele faça qualquer coisa errada, injusta e infiel… “Ele na pode negar-se a Si mesmo”. A despeito de como possa parecia nós, temos o conhecimento e conforto de que o Juiz do mundo inteiro fará justiça.

Bem, depois que apresentei meus pontos, elas fizeram perguntas. Senti muita pena mesmo, de uma senhora em minha classe. Ela está em nossa Igreja agora, mas antes freqüentava Igreja Unida. Acho que ela é salva… Mas periodicamente gente pode ver em seu modo de pensar e em suas observações um retorno à doutrina da salvação da Igreja Unida, que é através das obras! Evidentemente ela está toda confusa sobre este assunto – o que considero um bom sinal. Disse a ela que tinha me sentido muito mais perturbada antes. Ela não pode ver que isto não é injusto por parte de Deus…(Achei sua ilustração de Deus empurrando as pessoas para um lado ou outro excelente). Por isso trabalhei neste ponto. Acho que a maio Iria delas, finalmente começou a ter um raio de luz de que se Deus não tivesse eleito alguns, ninguém seria salvo.

Parece que todos nós temos a mesma reação – se a decisão fosse deixada a nós, teríamos uma chance melhor de sermos salvos, do que Deus tendo estabelecido tudo na eternidade; porque não queremos ou não aceitamos o ensinamento de que por nós mesmos somos incapazes de chegar a Deus. Falei a elas sobre nosso estado natural, estamos mortos em pecados e ofensas, e um defunto não pode nem mesmo piscar um olho. Por isso s6 se enganar, se pensarem por um minuto que algum dia aceitariam Cristo, se Deus não tivesse tomado medidas a este respeito.

Bem, nossa discussão durou quase 1 hora e meia! Esta senhora também achava, como outras também, que as Escrituras se contradiziam sobre Eleição…tais como João. 3:16 e I João. 2:2. Fiquei feliz com sua explicação de “todo” e “mundo” raramente sendo usadas no sentido absoluto.

Também, João. 6:37. ..”E o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”…Disse-lhes que olhassem a primeira parte do versículo e elas tiveram um choque! Eu também tive! “Todo que o Pai me dá virá a mim”…etc. É claro que Cristo não vai rejeitar nenhum que vier, porque qualquer que vier será aquele que o Pai deu! Elas ficaram simplesmente atordoadas! Mas reagiram como se o versículo fizesse sentido, e abrisse novos caminhos para o pensamento.

Depois, enquanto esperávamos pelo chá, esta senhora em particular, veio falar comigo. Senti tanta pena dela! Estava encabulada e quase chorando. Então perguntei: “Edite, as coisas estão mais claras agora?” Ela hesitou ao responder: “Em alguns aspectos, sim. Mas há outras coisas que sinto não poder harmonizar com minhas idéias do Deus da Bíblia”. Eu disse: Não tente minha amiga. O Dr. Cole disse para não tentar harmonizar todos os pontos deste ensino com outras passagens da Escritura, porque só ia ficar mais confusa, e creio que ele tem razão”. (A propósito: Esta foi uma grande ajuda pra mim, pessoalmente; o que o ; senhor me disse sobre ficar com mente confusa. Deixei de lado todos os argumentos, após ler sua carta, disse ao Senhor que achava que já havia lutado bastante, tentando coroar o oceano da teologia d’Ele com a xícara de minha mente, e que não ia mais esquentar a cabeça com os pontos que não entendia. Ele entende e isto basta para mim. E desde então sinto-me em paz).

Tentei falar estas coisas à Edite. Ela disse: “Marjorie, quase fico doida esta semana”. Então sua voz falseou: “Não posso pensar noutra coisa, e minha cabeça está fervendo”. Senti muita pena dela porque já acontecera o mesmo comigo, até que recebi sua resposta à minha carta.

Então me ocorreu a idéia de que talvez sua carta a ajudas se também. Por isso perguntei-lhe se gostaria de ler uma cópia de minhas perguntas e suas respostas. Ela ficou muito agradecida. Eu as tinha comigo, por isso dei-lhe tudo na mesma hora. Seria muito pedir ao senhor que orasse comigo, para que minha amiga fique em paz e aprenda com a ajuda do Espirito Santo, a amar esta doutrina como nós amamos?

Outra senhora, uma novata em minha classe, apesar de freqüentar a Igreja há vários anos, me disse comum sorriso: “Sou igual à senhora. Sei agora que fui eleita por Deus e isto é simplesmente emocionante. Queria tanto que a senhora falasse com meu marido. Ele teve tanta vontade de vir hoje à noite…até me perguntou se eu achava que a senhora se importava se ele ficasse num dos bancos lá atrás!” Acho que o marido dela leu o panfleto e ficou tão emocionado, que leu tudo de novo, e disse que em toda vida nunca tinha ouvido coisa igual. Porque não ouvimos sobre esta doutrina? E sabe Dr. Cole, várias pessoas já me disseram: “Por que nossos pastores não pregam sobre isto?”

Uma moça, também de outro estado do Sul – Texas – (mas não a que mencionei em minha primeira carta; ela não estava presente ontem à noite) está muito ciente sobre isto, mas admitiu que em ocasiões diferentes o assunto simplesmente perturbou um bocado de suas idéias e compreensão! Contudo, ontem à noite, ao encerrar, ela disse a mim em frente de todo mundo, quase com um suspiro de alivio: “Bem, isto tira com toda certeza o medo da morte, não é?” E sabe, é como o que estou sentindo fortemente agora. Fiquei olhando para ela um minuto – o que ela dissera era um eco do meu próprio coração. As vezes sinto que não posso esperar para ir para o céu, e aprender mais sobre Eleição e o resto da Bíblia.

Uma terceira senhora, mãe de um menino de 6 anos, me disse: “Marjorie, não sei. É maravilhoso demais. Desde seu estudo sinto e penso que tudo sobre Eleição está claro em minha mente agora. Também muitas passagens da Bíblia se encaixam e fazem mais sentido do que antes”.

Outra moça que já havia falado comigo várias vezes, disse-me que primeiramente (quando dei minha primeira aula em setembro) ela havia se oposto a isto, mas quanto mais lia o panfleto e pensava nele, mais achava que a doutrina era ensinada realmente na Bíblia, e que por isto estava disposta a crer, deixando o que não entendia para quando chegasse ao céu! Ontem quando terminamos ela cochichou: “Bem, sinto-me feliz hoje também, MarJorie. Mas acho que outras não estão. Mas é mais um caso de ‘não quero’ com elas”.

Contudo, estou orando para que o Espirito Santo faça Seu trabalho no coração das que estão confusas ou resistindo. Sinto-me mais animada porque sei que elas têm interesse, e como o senhor mesmo disse, nenhum de nós gosta desta doutrina; é preciso que o Espirito Santo ensine a pessoa a amá-la.

Prometi-lhe que não ia escrever muito. Já viu? Espero que não se aborreça. Mas sinto-me tão bem falando deste assunto e sou-lhe tão grata, que senti que devia contar-lhe tudo. O senhor tem qualquer outro dos seus ensinos em forma de panfletos? Estava procurando alguns jornais velhos outro dia e vi vários seus, em forma de séries, sobre Pecado, Salvação, etc. Gostaria de ter a coleção completa. Pedi 40 cópias de seu panfleto sobre Eleição, e as distribui em minha classe em setembro, por isso elas têm o que estudar e meditar desde então! Nunca vou poder agradecer-lhe o bastante por seu artigo. Com certeza Deus o guiou a imprimi-lo.

Seria tão bom assistir a este tipo de pregação hoje. Porque nossos ministros não pregam mais sermões sobre doutrina – em vez destas pregações açucaradas, pré-dirigidas e tópicos que tantos dão? Não é de admirar que os crentes de hoje não sejam forte e viris, sabendo de que lado estão – eles nunca deixaram o leite da palavra pela carne que fortalece. Ouvi, uma vez, um pastor batista dizer que hoje somos crentes “lanchonetes” quando devíamos ser crentes “sala-de-jantar”. Acho que ele está falando a verdade.

Agora preciso terminar. Mais uma vez obrigada, de coração, por tudo quanto fez por mim. Que Deus o abençoe ricamente e que seu ministério por Ele seja sempre frutífero, além de suas profundas imaginações e esperanças.

Sinceramente, Marjorie Bond

3ª carta:

7 de dezembro de 1959

Caro Dr. Cole:

Depois que mandei-lhe meu cartão de Natal, recebi seus livros: “A Esperança Celestial” e “Doutrinas Divinas”. Muitíssimo obrigada. Estou gostando demais do magnifico estudo sobre a doutrina de Deus. Como ela O magnifica, exalta e O restaura à Sua posição certa de Rei dos reis e Senhor dos senhores. Há tempo venho sentindo que as igrejas verdadeiras precisam de uma visão nova da santidade e majestade de Deus, e notar que Ele é “o alto e sublime, que habita na eternidade”. (Isaías 57:15). Há inteiramente muito espirito de camaradagem em nossa atitude para com Deus.

Gostaria mais que nossos ministros pregassem doutrina. Parece-me que os membros da igreja ficariam enraizados mais firmemente e cresceriam mais na fé, se tivessem mais ensinos doutrinários e menos pregações “lanchonete”!

A propósito de nosso estudo sobre Eleição, ainda tenho repercussão dele em alguns membros da minha classe. Nada do que já ensinei despertou tanto interesse. Também dei uma cópia de seu panfleto ao nosso ministro. Estou esperando para ver sua reação!

Estava visitando algumas amigas de outra igreja Batista, há poucas semanas atrás, e não sei como surgiu o assunto sobre minha Classe Bíblica e os ensinos sobre eleição. E imagine só…nenhuma pessoa na sala, com exceção dos membros de minha família que estavam presentes, tinha ouvido qualquer coisa sobre Eleição, e muito menos entendido isto! E todos eram ótimos crentes – não só crentes de nome.

Só deu tempo para uma discussão preliminar, quando fomos interrompidas. Mas pude ver que nem tudo foi recebido favoravelmente! (Como o senhor diz, todos nós somos Arminianos por natureza!) Uma senhora e seu pai já velho, os quais se tinham mudado para o Arizona há 2 anos atrás, voltaram para Calgary e estavam presentes essa noite. Há uma semana atrás encontrei-me com esta senhora no correio de uma de nossas lojas. Ela está trabalhando lá temporariamente, e como houvesse muita gente esperando para ser atendida, ela não teve muito tempo para falar comigo. Mas quando ia saindo do guichê, ela disse: “Oh! MarJorie; quero conversar com você sobre aquele assunto que estávamos discutindo na casa de Telma outra noite”. Por um minuto ou dois minha mente ficou completamente em branco…não podia me lembrar sobre o que ela estava falando. Ela sorriu e disse: “Lembra? A gente ia começar a discutir o assunto”. De repente lembrei-me e disse ansiosamente (este é meu assunto favorito agora). “Oh! sim, é claro. Estarei às suas ordens a hora que quiser”. Ela concordou e disse: “Bem, isto me tem feito pensar. Não entendo tudo nem digo que concordo, mas quero aprender mais a este respeito”. É outra onda formada pela pedra que o senhor jogou no lago!

Dr. Cole, sei que é muito ocupado, e tenho raiva de aborrece-te com minhas perguntas, mas certo que o senhor entende tão bem este assunto, que é o único em posição de me ajudar. Posso incomodá-lo com uma ou duas mais perguntas?

(a) Qual o significado de “fazer cada vez mais firme a vossa “vocação e eleição?” Primeiramente quando li II Pe. 1:5-10, à luz do meu recém-conhecimento sobre Eleição, pareceu-me que Pedro dizia ser possível alguém perder a salvação. E, ainda porque creio na segurança eterna do crente (ainda mais, desde que entendo Eleição) não pude entender como pode ser isto. Enquanto orava sobre o assunto, pareceu-me que talvez o significado fosse que uma pessoa que faz o que Pedro admoesta é mais um “afastado’ do que perdido. O Senhor acha que entendi certo?

(b) “Todos” em Rom. 11:32 é outro exemplo de “todo” sem ser todo no sentido absoluto? Quero dizer a parte que diz: “para com todos usar de misericórdia” Algumas pessoas alguém que esse versículo se opõe à Eleição dizendo que se Deus tivesse misericórdia de todos, Ele não pegaria e escolheria pessoas para a salvação como ensina a doutrina da Eleição.

(c) Também, enquanto estamos ainda em Romanos, é verdade que até os crentes serão julgados por tudo que fizeram desde que foram salvos? Não no sentido de castigo por seus pecados, porque o julgamento do pecado já ocorreu no Calvário. Mas, quando a Bíblia diz: “De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”; e novamente em Rom. 2:6…”0 qual recompensará cada um segundo as suas obras”, e I Cor. 4:5.

Não sei porque, mas o pensamento de ter todos os meus pecados expostos à vista, mesmo que não vá ser punida por eles, tira uma considerável alegria do céu. Eu me desviei horrivelmente há anos atrás, e mesmo sendo o Senhor muito mais querido agora do que antes, sinto às vezes que nada pode desfazer os pecados daqueles anos. Deus sabe tudo sobre eles e me perdoou; por que precisam ser publicados para que o mundo inteiro veja, quando eu chegar ao céu?

Pensei que a passagem em Salmo que diz: “Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões”, significava que uma vez salvos, Deus realmente riscava nossos pecados e nunca mais ouviríamos sobre eles. Mas parece haver várias passagens nas epístolas que leva alguém a pensar que, apesar de não sermos castigados por nossos pecados no sentido de ir para o inferno, certamente teremos de dar conta deles. Se for assim, parece-me que nenhum crente vai morrer realmente em paz, sabendo o que o espera adiante. (Por que temos mais medo da opinião do homem do que de Deus?)

(d) Minha última pergunta diz respeito ao que está escrito nas páginas 7-9 do seu panfleto “A Esperança Celestial”. Sempre entendi (graças a meu estudo em Eleição) tanto das Escrituras, como de vários hinos e sermões que ouvi, que há perigo em se deixar a salvação para depois; que uma pessoa pode ter sua vida cortada antes de aceitar Cristo e ser lançada na eternidade sem Deus.

Mas de acordo com a doutrina da Eleição, nenhum eleito para a salvação pode morrer sem ser salvo, não é? (“Todo que o Pai me dá virá a mim, e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”). Portanto, aqueles que Deus pretendeu salvar, serão salvos e não podem se perder, então não há perigo de demora para eles; e os não eleitos não serão salvos também, não é?

Parece-me que tenho tudo arrumado em minha mente, quando leio uma coisa que me faz ficar confusa outra vez!

Como já disse, eu cria também, que houvesse perigo em de morar. Todos os autores de hinos falam sobre isto etc… Mas desde que estudei Eleição, conclui que devia estar errada. Não há urgência real, no sentido de ser um assunto de vida ou morte, porque ninguém pode morrer, antes de ser salvo, se Deus quer que ele seja salvo. Portanto por que os ministros (mesmo os que, como o senhor, crêem em Eleição) urgem as pessoas a se apressarem e aceitarem Cristo, antes que seja muito tarde? Nunca pode ser muito tarde para uma pessoa eleita, pode?

Gostaria muito que pudesse ser esclarecida neste ponto.

Acho que o senhor até receia receber cartas minhas, pois sempre são tão compridas! Mas há tanta coisa para lhe perguntar e os ministros modernos, como médicos, são tão ocupados que não têm mais tempo para a gente.

Muito obrigada por sua ajuda, e que Deus o abençoe ricamente nos anos porvir.

Sinceramente, Marjorie Bond.

Resposta à 2ª e  3ª carta:

17 de dezembro de 1959

Cara D. Marjorie:

Saudações e votos de uma feliz época natalina!

Quando lhe mandei os livros pelo correio, pretendia escrever uma carta ao mesmo tempo explicando-lhe que não tinha a obrigação de pagar por eles, já que não os havia mandado pedir. Mas outras coisas vieram na frente e eu ainda planejava escrever-lhe, quando sua carta chegou com o pagamento. Talvez eu deva devolver parte do dinheiro, pois é mais do que mandei. O suprimento de livros e folhetos que já escrevi sempre se esgotam. É por isto que só pude mandar o que tinha. As séries sobre o PECADO e SALVAÇAO ainda não estão em forma de livro. Tenho dois ou três borrões grandes contendo artigos publicados em várias revistas. Na minha idade (estou com 75 anos), acho que não vou publicar mais livros. Contudo tenho amigos mui queridos entre os pastores jovens, e alguns talvez queiram publicar alguns dos meus escritos depois que eu me for.

Com esta breve introdução, vou agora responder às suas perguntas, esperando ser de alguma ajuda.

(a) A exortação de Pedro a “fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição “, é um aviso contra a presunção. Uma pessoa não deve considerar sua salvação verdadeira, sem uma evidência certa dela. É claro que ela quer dizer que devemos ter esta certeza por nós mesmos, pois não precisamos provar nada para Deus. Suas palavras têm a haver com a segurança e não com o fato da salvação. Ele começa com a graça da fé como dom de Deus, e nos urge a edificar sobre esta fé, para que nossa vida não seja estéril nem infrutífera. Nenhum crente infrutífero pode ter certeza da salvação como uma experiência subjetiva. A propósito, sua própria experiência enquanto estava desviada.

(b) Creio que “todos” em Rom. 11:32 é usado só num sentido relativo e não num sentido absoluto, ou então teríamos a salvação universal. Além disso, Rom. 8.18 ensina que Deus é soberano ao conceder misericórdia. Isto não quer dizer que Ele recusa misericórdia a quem confia em Cristo por ela, mas Ele não faz com que todos procurem por Ele pedindo misericórdia alguns são deixados à sua própria vontade carnal.

(c) Os crentes são julgados por suas obras, e não por seus pecados. Os pecados já foram julgados em Cristo e não aparecerão contra ele no dia do Juízo. A salvação é pela graça; o galardão é pelo trabalho. Haverá graus tanto no céu quanto no inferno, pois os salvos e perdidos serão julgados por suas obras – o perdido receberá o grau de castigo proporcional às suas obras más, e o salvo receberá glória de acordo com suas obras. Não espero a recompensa de Paulo, pois minhas obras não se igualam às dele.

Romanos 2 trata de princípios de julgamento sob a lei:

(1) É para ser de acordo com a verdade (Vers. 2), que é de acordo com os fatos;

(2) É para ser de acordo com as obras (Vers. 6);

(3) É para ser sem acepção de pessoas (Vers. 11-12).

O capítulo não está mostrando como ser salvo, mas o que alguém pode esperar da lei, quer seja judeu quer gentio.

Romanos 14 avisa os crentes contra julgarem uns aos outros por vários escrúpulos com respeito ao comer e guardar dias, baseado em que todos compareceremos ao julgamento do trono de Cristo (vers. 10 ). Daremos conta de nós mesmos a Deus e não uns aos outros.

I Cor. 4 trata do julgamento do crente como despenseiro de Deus. Não podemos julgar nem avaliar o trabalho de outro crente aqui nem agora, pois há muito que podemos não saber, como motivos e coisas escondidas; mas quando Cristo vier, Ele saberá tudo sobre nós e “então cada um receberá de Deus o louvor” (I Cor. 4:5). Não somos qualificados para julgar nem para determinar o lugar que outra pessoa terá na glória – Deus vai cuidar disso.

(d) Devemos nos dirigir aos perdidos como pecadores, e não como pecadores eleitos. Não sabemos quem é eleito, até que o manifeste na fé e nas boas obras. Devemos falar com eles sobre 2 necessidade da salvação e fazer com que confiem no único e suficiente Salvador – e confiem nEle agora. Devemos dizer a eles para confiarem em Cristo imediatamente ou esperar até outra oportunidade?

E verdade que “ninguém eleito para a salvação pode possivelmente morrer sem ser salvo”. Mas isto não significa que serão salvos sem ser pela fé no Senhor Jesus Cristo. E os meios de salvação são tão eleitos quanto as pessoas. Leia II Tess. 21:13,14.

Paulo sabia mais sobre a doutrina da eleição do que qualquer outro homem, e ainda ele influenciou as pessoas em relação a Jesus. (Atos 28:23). Ele sabia que o eleito seria salvo, e mesmo assim orava e trabalhava pela salvação de Israel (Rom 9:1-3; 10:1-4; 11:14; I Cor. 9:19-22). Não devemos deixar que a doutrina da eleição tire de nós a compaixão pelos perdidos, nem feche nossos olhos à urgência da salvação (Heb. 2:3; II Cor. 6:2).

Haverá coisas que não podemos entender e nem doutrinas que podemos harmonizar, mas é muito claro que Sua ordem para nós é testemunhar a todas as pessoas sobre Cristo Jesus. As coisas secretas pertencem a Deus, mas as coisas reveladas firmam nossa responsabilidade (Deut. 29:29).

Com amor cristão,
C. D. Cole.

Mensagem oferecida pela
1ª Igreja Batista do Jardim das Oliveiras
Fortaleza, CE

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