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Capítulo 5: A impecabilidade do nascido de Deus

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“Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus”. I João 3:9.

Este versículo da Escritura afirma claramente que uma pessoa nascida de Deus não pode pecar. Isto não quer dizer, como alguns ensinam, que tal pessoa não peca. O versículo afirma que aquela parte nascida de Deus, do crente em Jesus Cristo, não pode pecar. É óbvio que se uma pessoa é incapaz de pecar, ela não pode perder a salvação. Há quem ensine que uma pessoa pode se tornar santificada – a tão chamada segunda bênção – o batismo no Espírito Santo – quando a pessoa é capaz de viver sem pecar. Mas, estes também ensinam que uma pessoa que é capaz de não pecar, também pode pecar e se perder. Mas, nosso texto diz enfaticamente que uma pessoa nascida de novo – nascida de Deus – não pode pecar, isto é, não é capaz de pecar. Vamos tentar descobrir o que isto significa.

NOSSO TEXTO REFUTA VÁRIOS ERROS BEM CONHECIDOS E PREVALENTES NAS PREGAÇÕES DE HOJE EM DIA

1. Ela refuta a doutrina da apostasia, que ensina que o salvo pode pecar e ficar perdido. Citar o texto em qualquer tradução é suficiente para desmentir que uma pessoa salva possa se perder novamente.

2. Ela refuta o ensinamento sobre uma segunda bênção – bênção esta subseqüente à regeneração. Este texto não fala de nenhuma segunda bênção, seja lá o nome que seja. Ele fala do novo nascimento e daquele que é nascido de Deus. A incapacidade de pecar não é por causa de nenhuma segunda obra da graça, mas por causa da obra inicial do Espírito na regeneração.

3. Ele é contra a idéia que a fé precede e é a causa do novo nascimento. O novo nascimento é a obra de Deus; é o nascimento do Espírito Santo, seu único Agente. Não existe auto-nascimento, nem no reino físico nem no espiritual. No físico, a mãe dá à luz à criança; nenhuma criança auto-nasce. E no reino espiritual – no reino de Deus – a pessoa nasce de Deus. “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é (tem sido nascido) nascido de Deus”. I João 5:1. “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade”. Tiago 1:18. Falando sobre os crentes, João diz: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. João 1:13. A fé não é a causa do novo nascimento, mas sim o efeito. A fé é fruto do Espírito. (Gálatas 5:22).

VAMOS TENTAR ENTENDER O SIGNIFICADO DESTE TEXTO

Vamos tentar entender o significado deste versículo. Isto significa que uma pessoa nascida de novo não possa pecar de maneira nenhuma? Dar tal significado é colocar Escritura contra escritura. Além disso, faz o apóstolo João contradizer a si mesmo.

Em I João 1:9, está escrito que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça”. Mas se não formos capazes de pecar, de algum modo, então não há pecado a confessar, e haveria pecado em confessar algo do qual não somos culpados. Em I João 2:1 lemos sobre a provisão feita para o crente que peca: “Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo”. Isto deve se aplicar ao crente, pois nenhum descrente tem Cristo como Advogado. Em Hebreus 7:25, lemos que Cristo intercede por aqueles que vêm a Deus através dEle, o que significa que eles apresentam Cristo como meio de serem aceitos por Deus. “Deus não aceita aparência do homem”. Gálatas 2:6. Nossa salvação é “para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no amado”. Efésios 1:6. Mais uma vez, em I João 5:16, somos exortados, de maneira específica, a orar por um irmão que peca.

Isto também contradiria cada livro da Bíblia e a experiência de cada crente que já viveu, a de afirmar que nenhuma pessoa regenerada jamais peca, seja como for. Por outro lado, nosso texto ensina, sem sombra de dúvida, que de algum modo cada pessoa regenerada não pode pecar (irrepreensível), isto é; é incapaz de pecar, ou melhor que há certo tipo de pecado que ela não pode cometer. Assim, nossa tarefa é descobrir que pecado é esse ou de que modo ela não pode pecar.

AS VÁRIAS INTERPRETAÇÕES PARA ESTE TEXTO

Há várias interpretações para este texto, e pode-se dizer algo a favor da maioria delas. Há verdade nestas interpretações, mas quanto ao ser a verdade particular do texto é outra questão. Vamos examinar algumas interpretações e dar nossa humilde opinião sobre elas.

1. Há quem ensine que a pessoa nascida de novo – o crente em Cristo – não está sob a lei, mas sob a graça; e onde não há lei, não pode haver pecado. O pensamento é que uma pessoa nascida de novo não pode pecar porque não está sob a lei. É verdade que o crente não está sob a lei. Romanos 6:14. Também é verdade que “o pecado não é imputado, não havendo lei”. Romanos 5:13. “Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado”. Romanos 4:8. É gloriosamente verdadeiro que os pecados do crente não lhe são imputados; se fossem, somente alguém sem pecado podia ser salvo, o que impediria a salvação de quem quer que fosse. O escritor rejeita esta interpretação do texto apresentado, por duas razões. Primeiramente, não é uma questão do pecado ser ou não imputado; a questão é se o pecado é ou não cometido. Neste texto há um sentido em que uma pessoa regenerada nem mesmo comete pecado. No texto, não é por causa da posição em Cristo, mas da condição, pela virtude de ser nascido de novo. Em segundo lugar, a interpretação acima esmagaria o antinomianismo, que significa ser contra a lei. O crente não está sob a lei como a maneira de ser salvo; mas ele ama a lei como sendo santa, justa, boa e a regra do seu viver. Ele está sob a lei para Cristo. I Coríntios 9:21. Pecado é pecado – não importa quem o comete. Certo pastor batista propôs, um dia, um tipo de conduta vergonhosa a outro pastor batista. Ao ser repreendido por tal proposta, ele disse: “Não seria errado, você sabe que não estamos sob a lei, mas sob a graça”. É isto o que significa antinomianismo.

2. Há outros que interpretam I João 3:9 deste modo: eles lembram que o crente, diante de Cristo, não tem pecado; que Deus nos fez sabedoria, e justiça, e santificação e redenção. I Coríntios 1:30. Esta é uma verdade gloriosa, mas não cremos que seja a verdade apresentada no texto. Com certeza, esta explicação é diferente da linha de pensamento total do apóstolo. João não está tratando da justiça imputada de Cristo ao crente na salvação e sim de conduta humana.

3. Há também a idéia de que a nova natureza não peca e não pode pecar. Esta opinião sobre o texto faz João ter em mente o que Paulo tinha ao escrever sobre o conflito entre as duas naturezas da pessoa que é nascida de novo. Ver Romanos 7:17-21 e Gálatas 5:17. Mas estamos certos de que o apóstolo João não tinha esta verdade em mente. Ele usa a frase: “Qualquer que é nascido de Deus”. Ele não está falando sobre o que a nova natureza não pode fazer, mas sobre o que a pessoa, que nasceu de novo, não pode fazer.

4. Uma interpretação mais semelhante é que a pessoa nascida de novo não pode pecar habitualmente – não pode praticar o pecado como regra ou hábito na vida. Esta era a opinião do Dr. A. T. Robertson (um dos maiores eruditos da língua grega), o qual insistia que o tempo do verbo é o presente de uma ação contínua. Bem, é verdade que alguém nascido de Deus não pode saborear o pecado como se fosse um bocado gostoso – não pode ter carinho por pecado nenhum, nem abraçá-lo ao peito nem levá-lo consigo ao céu. A semente de Deus fica nEle e não vai poder viver como um ímpio. Há muito a se dizer a favor deste significado do texto. O contexto também é favorável e ainda o tempo do verbo. Aquele que comete (pratica, vive na prática) pecado é do diabo porque o diabo peca (pratica o pecado) desde o princípio. O diabo não tira férias em sua carreira de pecados.

5. Dr. B. H. Carroll dá ao versículo este significado: “Quem é nascido de Deus não peca para a morte”. Ele pensa que o contexto exige esta explicação. O pensamento, segundo ele, é que alguém nascido de Deus pode pecar, mas não para a morte; seus pecados podem ser perdoados. “Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore. Toda a iniqüidade é pecado, e há pecado que não é para a morte”. I João 5:16-17. O escritor não pode concordar com esta interpretação, pela seguinte razão: o versículo só pode ser aplicado ao nascido de Deus, ao passo que uma pessoa que não foi regenerada talvez cometa pecados que não podem ser perdoados.

6. O escritor é a favor da interpretação dada por Andrew Fuller como a mais provável de todas. Falando sobre I João 1:8 e I João 3:9, Fuller diz: “parece que a palavra ‘pecado’ nestas passagens tem significado diferentes. Na primeira deve ser considerada no sentido literal, como qualquer transgressão da lei de Deus. Se qualquer homem, neste sentido, disser que não tem pecado, está enganando a si mesmo. No último exemplo, parece, no contexto, que o termo quer denotar o pecado da apostasia. Se substituíssemos o termo apostasia por pecado, nos versículos seis ao nove, o significado seria claro. Quem está nEle não apostata; quem apostata não O viu, nem O conhece. Quem apostata é do diabo; pois o diabo foi apóstata desde o princípio. Quem é nascido de Deus não apostata; porque a sua semente permanece nele; e não pode apostatar, porque é nascido de Deus.

Fuller continua dizendo que este sentido do último versículo concorda perfeitamente com o que se chama “pecado para a morte” em I João 5:16-18. E ele ainda diz que concorda com o capítulo 2:19: “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós”. De um modo geral diz Fuller, o que presumiríamos chamar de prova incontestável da perseverança certa dos crentes verdadeiros. O apóstolo está dizendo, que os que abandonam sua profissão de fé e a deixam, na realidade nunca pertenceram a ela nem ao povo verdadeiramente nascido de Deus. É como dizer que o povo nascido de Deus não apostata dos princípios verdadeiros da fé. Quem nasce de novo nunca renuncia a sua fé em Cristo, pois é guardado pelo poder de Deus através da fé. I Pedro 1:5.

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca”. I João 5:18. Satanás faria o crente se afastar de Deus e renunciar a sua fé nEle, mas o crente é guardado pelo poder de Deus e não pode perder a fé. O diabo não pode fazer, os que são nascidos de Deus, apostatarem. “Cristo em vós”, diz Paulo, “esperança da glória”. Colossenses 1:27. Cristo não salva o pecador e depois o abandona nas mãos do diabo. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão”. João 10:27-28. Quem é nascido de Deus persevera na fé. Se perdesse a fé seria o mesmo que dizer que perderia a salvação. Ouvintes do terreno pedregoso (em pedregais) têm somente uma fé temporária e agüentam por um pouco, pois não têm raízes neles mesmos. Mas, quem nasce de Deus não é assim. “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”. I João 5:4. Uma vitória gloriosa está assegurada para todos aqueles que são chamados e eleitos!

Published inDefinição de doutrina – Volume 2

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