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Capítulo 23: Predestinação – Profecia – Providência

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“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Efésios 1:11

As três palavras bíblicas, do título acima, expressam doutrinas intimamente relacionadas, as quais encontram apoio no versículo citado. Desde que o conhecimento começa com uma definição, vou começar definindo os termos. Define-se predestinação como o propósito de Deus desde a eternidade em relação a eventos futuros. A profecia é uma declaração ou revelação de eventos futuros e de ações humanas. A providência é a obra de Deus em cumprir na história o que está predestinado na eternidade e profetizado no tempo. Estas três doutrina se baseiam na vontade de Deus. Por isso lemos que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Efésios 1:11.

Podemos explicar melhor assim: Predestinação é a determinação ou propósito eternos da vontade divina; Profecia é a revelação da vontade divina e Providência é a execução da vontade divina.

Isto faz surgir a questão quanto a quem ou o que governa este mundo. Em resposta, há quatro grupos de pensamento. Um dos grupos diz que tudo veio a existir através de uma lei fixa – a lei da natureza. De acordo com esta opinião, o Criador fez o mundo, do mesmo modo como um homem talvez faça um relógio, deixando-o funcionar sem nenhuma interferência exterior. A única parte que Deus tem no que acontece no mundo é deixar que ele funcione através das leis morais e naturais que Ele mesmo fez. Esta opinião rejeita todos os milagres e acredita apenas no que pode ser racionalizado, na tão chamada base científica. O segundo grupo de pensamento diz que tudo acontece pelo acaso (chance). Não há nada fixo nem determinado. Uma coisa tanto pode acontecer quanto outra. O terceiro grupo acredita que tudo acontece através de uma força fria e impessoal chamada destino. Finalmente há a opinião bíblica e cristã que tudo acontece através da vontade divina na chamada Providência; isto é, através da administração de um Deus Todo-poderoso, sábio e cheio de amor. O Deus que criou, sustenta e governa para o louvor de Sua própria glória e para o bem do Seu povo.

A palavra traduzida “prudência” em Atos 24:2 na língua original (grego) da Bíblia é providência. Ela se refere aqui ao governo ou administração de Félix, o governador romano da Judéia. O apóstolo Paulo está sendo julgado por ele, acusado pelos judeus de crime de insurreição e como sendo o líder da seita dos Nazarenos. Ananias, o sumo sacerdote e os anciãos levaram com eles um advogado, chamado Tértulo, que fez as acusações contra Paulo. Mas, antes de apresentar o caso, Tértulo bajula o governador ao dizer: “Visto como por ti temos tanta paz e por tua prudência se fazem a este povo muitos e louváveis serviços, Sempre e em todo o lugar, ó potentíssimo Félix, com todo o agradecimento o queremos reconhecer.” Atos 24”2-3. Que mentira lisonjeira! Durante o governo de Félix, as revoltas no país eram comuns e contínuas, culminando com a revolta final que terminou com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.

Embora a palavra “prudência” (providência) aqui se refira ao governo de Félix na Judéia, ela é muito mais aplicável ao governo soberano de Deus, cujo domínio é sobre todos e de eternidade à eternidade.

ALGUMAS OBSERVAÇÕES GERAIS

1. Embora os decretos e profecias divinos tornem uma coisa certa, não há força externa usada, para que se cumpram. Quando se prediz um ato mau de alguém, a providência não é uma força externa que leva ao ato. Nunca, podemos, verdadeiramente, dizer que o homem teve que pecar, no que diz respeito a uma força externa. Deus nunca força ninguém a pecar. Pelo contrário, Ele dá mandamentos, conselhos e persuasão para que não se peque. Nenhum homem ou grupo de homens podem forçar outro ser humano a pecar. Se alguém me pegasse pela força bruta, colocasse um revólver em minha mão e pela força me obrigasse a puxar o gatilho, resultando na morte de alguém, eu não seria culpado de homicídio, nem mesmo de delito.

2. Deixe-me lembrar e deixar bem claro, de uma vez por todas, que o pecado mora no coração do homem e tem que estar lá, antes que seja cometido. “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias”. Mateus 15:19. Não nos esqueçamos nunca que Deus jamais coloca o pecado no coração de homem. Como ele chega lá é um mistério profundo. Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, declarando-o bom. No mistério da administração divina, o primeiro homem pecou e perdeu a imagem de Deus na santidade. E a raça humana inteira caiu com o primeiro Adão. (Romanos 5:12-19). “Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias”. Eclesiastes 7:29. Deus nunca é o autor nem a causa do pecado.

3. Ao deixar que o mal aconteça, Deus permite que os homens façam o que já está no coração deles. “O qual nos tempos passados deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos”. (Atos 14:16). É terrível imaginar que Deus pode, mais uma vez, abandonar nações inteiras à própria vontade. Em Romanos, capítulo 1, Paulo descreve a degradação moral das nações gentias (pagãs). Em primeiro lugar os homens “detiveram” ou suprimiram a verdade sobre Deus no livro da natureza. Fingindo-se sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em várias imagens como objetos de adoração. Havia Apolo para os gregos, a águia para os romanos, o boi sagrado para os egípcios e a serpente para os assírios. Deus deixou que esta degradação fosse de mal a pior. O capítulo acaba com uma lista comprida de pecados prevalentes em nossa sociedade hoje, mesmo nos países que se dizem cristãos. É de estremecer, ao examinarmos o horizonte profético. Em Gênesis 6:11 lemos que a terra estava cheia de violência nos dias de Noé, logo antes do dilúvio. Lemos em Mateus 24:37 que estas mesmas condições existirão bem antes que nosso Senhor Jesus Cristo volte para julgar. As multidões estarão tão ocupadas com assuntos materiais e passageiros que o julgamento as pegará desprevinidas. Voltemos agora ao pensamento central. Isto é, os propósitos eternos e as profecias bíblicas fazem os males preditos como certos, sem impor qualquer necessidade de fazer o mal sobre ninguém. A soberania de Deus e a responsabilidade do homem são totalmente verdadeiras, embora não sejamos capazes de conciliá-las.

ILUSTRAÇÕES E EXEMPLOS PARA NOSSO TEMA CENTRAL

1. Examinemos o caso de Judas Iscariotes, que traiu Jesus. Este fato foi predito no Salmo 41:9 e citado por Jesus em João 13:18: “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido; mas para que se cumpra a Escritura: O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar”. Nosso Senhor está dizendo aqui que Ele sabia o que estava fazendo quando escolheu Judas como apóstolo; Ele fez com que a Escritura se cumprisse. Quando Pedro fez sua confissão pelos doze, dizendo “…. Nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus”, Jesus o corrigiu ao dizer a eles (aos doze): “Respondeu-lhe Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo”. (João 6:67-69).

João nos diz que Ele falava sobre Judas Iscariotes que ia trai-lO. (João 6:69-71). Na festa da Páscoa, Jesus identificou quem O trairia ao lhe dar o pão molhado (João 13:26). Se Judas não tivesse traído Jesus, tanto o Salmista quanto o Salvador seriam taxados de mentirosos. Mesmo assim, ninguém obrigou Judas a fazer a coisa horrível que fez; foi sua própria vontade e acordo. Simplesmente expressava o que havia em seu coração. Nosso Senhor escolheu Judas, porque ninguém, a não ser um demônio, faria o que ele fez.

2. Considere algumas das muitas profecias em relação à morte de Cristo, exatas em muitos e diminutos detalhes. A primeira de todas encontra-se em Gênesis 3:15, que diz que a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente e esta lhe feriria o calcanhar. Em Gálatas 3:13 Paulo cita Deuteronômio 21:23, a fim de indicar que Cristo morreria crucificado, o método romano da pena capital. Isto necessitava de uma mudança de governo, pois se Jesus fosse condenado à morte pela lei judaica, Ele teria que ser apedrejado. No Salmo 22 lemos sobre o grito de angústia (versículos 12 e 17) e a divisão de Suas roupas e jogo para quem ficaria com a túnica (versículo 18). Todas estas predições foram cumpridas no lugar chamado Calvário. Em Isaías 53 vemos o Messias desprezado e rejeitado pelos homens, ferido de Deus, sendo sepultado com os ímpios e com o rico na sua morte; como satisfeito com o resultado de Seus inimigos. Eis o mistério da Providência Divina no cumprimento de todas estas predições uns 700 anos após no Calvário. Em João 12:32 o próprio Jesus predisse o modo e o resultado de Sua morte: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim”. Em João 10, Ele fala sobre Si mesmo como o Bom Pastor que dá a Sua vida por Suas ovelhas, predizendo que elas ouvem Sua voz, seguem-nO e recebem a vida eterna. Em sua oração como Sumo Sacerdote, registrada em João 17, Jesus reconhece que o Pai Lhe deu autoridade sobre toda a carne, para que Ele pudesse dar a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe desse e que enquanto estava na terra guardara os que Lhe foram dados, para que nenhum se perdesse. Depois Ele disse que o filho da perdição se perdeu, para que as Escrituras se cumprissem. Nos registros sobre a morte de Cristo, encontrados nos Evangelhos, vemos que toda a Escritura se cumpriu, tudo acontecendo através da Providência Divina.

No livro de Atos, Lucas, o historiador, confirma o cumprimento destas profecias. Em Atos 2:23 ele diz isto: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. Temos aqui a vontade ou o propósito de Deus na morte de Cristo sendo executado por mãos ímpias. Ninguém foi forçado a crucificar Cristo. Os homens agiram por vontade própria e revelaram o fato que a mente carnal é inimizade contra Deus. O Senhor Jesus é Deus em carne humana. Em Atos 4:26 lemos uma citação feita do Salmo 2, com este comentário: “Levantaram-se os reis da terra, porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer”. Temos aqui a predestinação (a determinação ou o propósito da vontade divina) e a Providência (a execução da vontade divina) na crucificação de Cristo. Os políticos e religiosos faziam a vontade de Deus. Mas o motivo deles não era o de executar Sua vontade. Simplesmente agiam segundo a maldade de seus corações. Deus não colocara este mal lá, porém Ele controlou e dirigiu tudo o que fizeram, a fim de realizar Seu propósito eterno em Cristo. O motivo humano era mau, porém Deus orquestrou (dominou) tudo para a salvação dos pecadores e para o louvor de Sua graça. Este é um dos muitos lugares onde Deus faz a ira do homem O louvar, impedindo o contrário (Salmos 76:10).

Por causa da providência dominadora de Deus, o que os irmãos de José fizeram vendendo-o como escravo, foi atribuído ao próprio Deus. Quando José se revelou aos irmãos e eles notaram o que haviam feito, começaram a chorar de medo. Mas José os conforta dizendo-lhes que a mão de Deus estava em tudo o que acontecera, para salvação de vidas. Gênesis 45:8: “Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como regente em toda a terra do Egito”. E em Gênesis 50:20 vemos que o que fez a diferença na vontade divina e na ação humana estava no motivo. José diz aos seus irmãos: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida”. E assim o que aconteceu no Calvário foi orquestrado por Deus, a fim de salvar muitos pecadores do castigo eterno, no inferno.

A Deus demos glória, com grande fervor;
Seu Filho bendito por nós todos deu;
A graça concede ao mais vil pecador,
abrindo-lhe a porta de entrada no céu.
Oh graça real, foi assim que Jesus,
Morrendo, seu sangue por nós derramou!
Herança nos céus, com os santos em luz,
Comprou-nos Jesus, pois o preço pagou.
A crer nos convida tal rasgo de amor,
Nos merecimentos do Filho de Deus;
E quem, pois, confia no seu Salvador,
Vai vê-lo sentado na glória dos céus.

Coro
Exultai! Exultai! Vinde todos louvar
A Jesus, Salvador, a Jesus Redentor;
A Deus demos glória, porquanto do céu,
Seu Filho bendito por nós todos deu.

Cantor Cristão, Nº 15, Exultação – Fanny Jane Crosby

Published inDefinição de doutrina – Volume 2

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