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Capítulo 22: Justiça para o injusto

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“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé. Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça”. Romanos 1:16-18.

Se eu tivesse apenas um sermão para pregar e o mundo inteiro como platéia, seria esta a mensagem que pregaria. Não ia permitir que a falsa modéstia me impedisse de dizer que a verdade deste sermão é a mais vital para cada homem.

Paulo diz que não se envergonha do Evangelho porque é ele que Deus usa para salvar os pecadores. Depois, o apóstolo diz como o Evangelho salva, através da revelação da “justiça de Deus”, ou como um injusto pode se tornar justo diante de Deus. Eis aqui a pedra fundamental do Evangelho verdadeiro; ela revela como um pecador pode se tornar justo diante de um Deus justo e santo.

ALGUMAS OBSERVAÇÕES NECESSÁRIAS

1. A salvação é uma necessidade tremenda porque os homens são injustos, quer por herança, quer por prática. Deus é um Legislador e a falha dos seres morais em obedecerem a Sua lei os torna injustos diante de Seus olhos. Esta injustiça merece, e deve receber, o castigo de Deus. “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens”. Romanos 1:18.

2. A injustiça é universal entre os homens. “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer”. Romanos 3:10. Isto significa que nenhum homem é justificado por seus próprios atos, nem por mérito próprio. Se considerar a si próprio, cada homem se encontra arruinado pela queda e maldito pela lei: “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las”. Gálatas 3:10. “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”. Romanos 3:19.

3. Cada pessoa sem Cristo está sob a lei moral de Deus, como regra de vida. “Ora Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas”. Romanos 10:5. Há quem pense que todos estavam sob a lei antes da vinda de Cristo, e desde que Ele veio todos estão sob a graça. Se isto fosse verdade, todos quantos existiram antes de Cristo estariam perdidos e todos os que existem depois de Sua vinda estão salvos. Isto significaria uma perdição universal em um período de tempo e uma salvação universal em outro período. É função da lei punir a desobediência; é parte da graça salvar o desobediente. Todos os homens são salvos do mesmo modo, pela graça mediante a fé, quer na época do Velho Testamento ou desde a vinda de Cristo. Todos têm o mesmo Salvador, não importa o ano em que viveram. Os crentes do Velho Testamento olharam para o futuro – para o Salvador que viria; os crentes do Novo Testamento olham para trás – para o Salvador que já veio. Romanos 4:1-7. Gálatas 3:21-24. O único meio de fazer isto é confiar em Jesus Cristo, “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê”. Romanos 10:4.

4. A fim de ser salvo, um homem deve ter uma justiça que se conforma a tudo quanto a lei de Deus exige. De outro modo o pecador seria salvo às custas da justiça divina. Nenhum atributo de Deus sofre na salvação dos pecadores. O princípio da justiça opera na salvação tão verdadeiramente quanto na perdição, sendo a diferença que na salvação os atributos divinos da misericórdia, graça e amor entram em ação, a fim de satisfazer a justiça de Deus ao entregar Cristo para ser castigado como Penhor de Seu povo. Cristo morreu por meus pecados no sentido de que foi punido por eles e se foi punido por eles, então Deus, que é justo, não vai me punir por eles outra vez.

“Livres do medo temos ficado

Cristo morreu, levando o pecado;

Eis o resgate: o pacto se fez;

Fomos remidos de uma vez!”

Cantor Cristão – 376

A justiça do crente se chama “justiça de Deus”. Esta frase ocorre com freqüência e é uma das expressões mais importantes da Bíblia inteira. A fim de ser salvo, o pecador tem que ter a justiça de Deus e isto é o que se revela no Evangelho de Cristo.

SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO

A retidão de Deus não é o mesmo que a justiça de Deus (que Deus é justo e por isso pune o pecado e o pecador). Deus é justo no sentido de castigar o pecado, mas o Evangelho não salva ao nos dizer que Ele o é e vai nos dar o que merecemos. Dizer ao criminoso que a lei lhe fará justiça não são notícias boas, como não o é dizer ao pecador que Deus fará justiça – estas seriam más notícias. A expressão também não se refere a uma justiça que Deus requer do pecador. Dizer a um pecador que o salvará se ele realizar todos os atos justos exigidos na lei é zombar dele em seu desamparo.

Esta expressão que se encontra diante de nós refere-se à justiça que Deus já proveu para o pecador. E estas, sem dúvida, são notícias maravilhosas. Os homens precisam desta justiça. Sem ela eles estão eternamente perdidos. Ouvir que Deus oferece, pela cruz, a justiça exigida por Sua santidade são as notícias melhores que alguém pode escutar. Assim, o Evangelho revela uma justiça provida, não uma justiça exigida; uma justiça imputada, não uma justiça concedida; uma justiça importada do céu, não uma justiça exportada da terra. A justiça de Deus é uma veste tecida de modo divino e não uma veste de fabricação humana. Quando os aventais de folhas de figueira de Adão e Eva não adiantaram nada, “E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu”. Gênesis 3:21. Tipo notável da inutilidade das obras humanas na salvação e da obra do Cordeiro de Deus que tira o pecado, através do sacrifício de Si mesmo.

A justiça de Deus vem ao pecador pela fé. “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença”. Romanos 3:21-22. “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê”. Romanos 10:4 21. “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”. II Coríntios 5:21.

Querido leitor, se é um perdido, deixe-me urgi-lo a reconhecer diante de Deus e diante dos homens que não possui nenhuma justiça própria e então confie em Jesus Cristo para receber a justiça que Ele ofereceu através de Sua obediência até à morte – e morte de cruz! Então, você poderá dizer como Isaías: “Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça, como um noivo se adorna com turbante sacerdotal, e como a noiva que se enfeita com as suas jóias”. Isaías 61:10.

A JUSTIÇA DE DEUS DESCRITA

1. Quanto ao autor. Como já vimos, Jesus Cristo é o Autor desta justiça. Ele a ganhou através de Sua morte na cruz. “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos”. Romanos 5:19. Este versículo ensina, sem sombra de dúvida, que somos culpados pela desobediência de Adão e justos pela obediência de Cristo. A fim de ser justificado por Deus é preciso que se seja justo em pessoa ou por procuração. Teoricamente, há dois modos de se ser justo diante de Deus: um é pela obediência pessoal (Levítico 18:5, Romanos 10:5); o outro é através da obediência de um substituto e Penhor. Prática e realmente, só há um meio e este é através da fé em Jesus Cristo, o Penhor de uma melhor aliança. (Hebreus 7:22, 8:6).

2. Na sua extensão. A justiça que Cristo ganhou para os pecadores alcança cada crente que nasceu de novo. Ver Atos 13:39, Romanos 5:1, 10:4, I Coríntios 1:30. A justiça que Cristo proveu não era para Si mesmo, pois Ele é Deus. Oficialmente, na eternidade passada, Jesus Cristo sendo Deus, exerceu Sua justiça de Legislador. A fim de se ser justo como legislador, a lei deve ser imposta e a desobediência punida. A fim de se ser justo como guardador da lei, esta lei deve ser obedecida. E assim Cristo cumpriu a lei por nós e também pagou a pena a que estávamos sujeitos, ao violarmos a lei. Gálatas 3:13. Eis aqui um argumento irrefutável para a divindade de Cristo. Se Ele fosse apenas homem, teria Suas próprias obrigações perante a lei de Deus, e embora sendo um homem perfeito, não poderia prestar conta diante de Deus por outros homens. Às vezes, ouvimos as pessoas dizerem que confiariam em Jesus como Salvador, mesmo que não acreditassem em Sua divindade. Mas este autor se atreve a dizer que não confiaria nEle se fosse apenas homem, por melhor e mais glorioso que fosse. A Bíblia diz: “Deixai-vos do homem cujo fôlego está nas suas narinas”. Isaías 2:22. Nenhum ser criado pode salvar pecadores. A divindade do Senhor Jesus é absolutamente vital para que pudesse ser o Salvador. O Verbo eterno se fez Homem, a fim de representar outros homens diante do tribunal celeste. “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo”. I João 2:1. Nosso Redentor no Calvário é agora nosso Advogado no céu.

O Primeiro e Último Adão. Em I Coríntios 15:45, 47 Jesus é chamado o segundo homem e o último Adão. Ele é considerado aqui de modo representativo, não pessoalmente. Considerado como pessoa, Jesus não foi nem o segundo homem nem o último Adão. Houve muitos homens entre o Adão do Éden e o Adão do Calvário, e existiram muitos homens desde Jesus. Ele é chamado o segundo homem e o último Adão porque só houve dois homens que agiram como representantes. Deus trata com todos os homens, através de dois homens, e nosso destino eterno depende em qual destes homens temos nossa posição perante Deus. Os crentes são aceitos no Amado (Efésios 1:6) e são completos nEle (Colossenses 2:10). E assim, os crentes, considerados como seres morais, obedeceram a lei na pessoa do seu Representante e Substituto, e são portanto justos diante de Deus. Jesus Cristo é “O Senhor Justiça nossa”. Jeremias 23:6.

“Quando do pó ressuscitar

e a mansão celestial receber.

Minha justificativa mesmo assim, será

´Jesus viveu e morreu por mim´”.

3. Na sua duração. Até quando durará a justiça provida por Cristo? Não se precisa argumentar que ela durará para sempre. “A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade”. Salmo 119:142. “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados”. Hebreus 10:14.

“A justiça de Adão ou dos anjos só podia existir enquanto estivessem num estado de obediência. A lei estava ligada a eles em cada momento de sua existência. No instante em que desobedeceram, os privilégios que existiam por causa de toda a obediência passada, deixaram de existir”. (Robert Haldane). Como contraste, Jesus Cristo é o Deus-homem, e tudo o que fez, era parte de seus méritos pessoais; portanto, num período limitado de tempo, Ele pôde ganhar uma justiça de valor infinito em cada aspecto”. “Levantai os vossos olhos para os céus, e olhai para a terra em baixo, porque os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra se envelhecerá como roupa, e os seus moradores morrerão semelhantemente; porém a minha salvação durará para sempre, e a minha justiça não será abolida”. Isaías 51:6.

O paraíso no qual Adão foi colocado, ao ser criado, era aqui na terra. Este paraíso foi perdido por causa da desobediência. Mas o paraíso prometido a nós será nosso pela virtude da obediência do último Adão, e é “uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação”. I Pedro 1:4-5. É com base nesta justiça que Deus justifica o crente de tudo, e o livra de cair no abismo da destruição eterna.

Meu Salvador Seu sangue derramou?
E meu Soberano morreu?
Por que sofreria tanto assim,
Por um verme como eu?
Foi pelos crimes que cometi
Que no madeiro deu a vida?
Piedade estupenda! Graça sem par!
E amor sem medida!
Bem podia o sol seu brilho esconder
E Sua glória encerrar.
Quando Cristo, o Criador morreu
Pecadores para salvar.
Só o arrependimento não pode pagar
Tal dívida de amor
Aqui, Senhor, a Ti me dou
É tudo o que posso fazer.

— Isaac Watts

Published inDefinição de doutrina – Volume 2