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Capítulo 15: Justificação ou absolvição divina

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Demóstenes falou muito bem ao dizer que o conhecimento começa com uma definição. Cada professor precisa se lembrar disto e ser cuidadoso ao definir seus termos. A Bíblia está repleta de palavras grandes; palavras de uma importância tremenda, e devemos ter muito cuidado ao defini-las.

O livro de Jó é cheio de perguntas. “Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso?” (Jó 11:7). “Morrendo o homem, porventura tornará a viver?” (Jó 14:14). “Como seria puro aquele que nasce de mulher?” (Jó 25:4). “Como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2). Esta mesma pergunta é repetida em Jó 25:4a: “Como pois seria justo o homem para com Deus”? È a ela que daremos nossa atenção neste capítulo. Vamos fixar esta pergunta em nossa mente: Como pode o homem rebelde, que tentou tirar o Deus de toda a Terra de Seu trono, ser absolvido por este Deus?

Perguntaram a certo homem se queria ser salvo? Ele replicou: Quero, mas não vejo como Deus pode me salvar sem cometer um erro.

Este homem era um pensador. Ele continuou dizendo que tinha pecado; que a Palavra de Deus diz que o salário do pecado é a morte e que, como pecador, devia receber o que merecia. Confessou, então, que merecia ser castigado e que não conseguia entender como Deus podia continuar sendo justo, sem castigá-lo por seus pecados. A pergunta de Jó era a mesma deste homem.

Não havia perguntas antes do pecado entrar no mundo. Eva foi enganada ao pensar que o fruto proibido a faria sábia e assim resolveria todas as perguntas futuras. Mas esta tentativa de se tornar sábio, tornou-se separação de Deus, com a escuridão resultante face a perguntas inumeráveis. Adão e Eva andavam pela fé no que Deus dissera, mas ao desobedecerem, começaram uma jornada do andar pela vista, que significa crer no que se vê. Eva viu que o fruto da árvore proibida era bom para comer e agradável aos olhos. Na salvação, o pecador volta ao princípio do andar pela fé, que significa crer no que Deus diz. “Mas o justo viverá da fé”. (Habacuque 2:4, Hebreus 10:38). “A fé é pelo ouvir e o ouvir pela Palavra de Deus”. (Romanos 10:17). Se o pecado reinou ao trazer perguntas ao mundo, então a graça reina ao responder a estas perguntas. Como pode um pecador ser absolvido diante de um Deus justo e santo? Esta é uma grande pergunta, mas há uma resposta infalível e bendita, encontrada na Bíblia. Vamos examinar:

A NATUREZA DA JUSTIFICAÇÃO OU O QUE É JUSTIFICAÇÃO

Justificação é o aspecto particular da salvação que consiste no livramento da culpa e do castigo do pecado. É o aspecto legal da salvação, no qual se tem direito de ficar diante de Deus, como Legislador. Em relação à culpa e à condenação, o crente é tão perfeito como se nunca houvesse pecado. Paulo desafia o universo inteiro a apresentar uma só acusação contra o eleito de Deus (Romanos 8:33). Em Antioquia da Pisídia, o apóstolo pregou o Cristo crucificado e ressurreto, ao dizer: “e de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê”. (Atos 13:39).

A justificação é um termo da lei ou judicial. Não se refere a nenhuma obra interior da graça como a regeneração o faz. Não tem nada a ver com a melhora moral, mas sim com posição (reputação) judicial. Significa absolvição, defesa, aceitação, diante de um tribunal. O Concílio de Trento (1547) dá a definição da Igreja Católica Romana ao termo: “não é a simples remissão de pecados, mas também a santificação e renovação do homem interior”. Porém tal definição confunde a justificação com a regeneração e a santificação, que são outros aspectos da salvação.

Pegue a palavra no seu uso diário, e tornará óbvio que não tem nada a ver com a melhora do caráter nem com a mudança moral. Justificar a opinião de alguém não significa mudá-lo nem corrigi-lo, mas sim defendê-lo. Justificar um curso de conduta não significa mudar de conduta, mas sim a defesa do que se faz. Justificar um amigo não implica em qualquer mudança no amigo, mas na defesa dele perante qualquer tribunal, ou mesmo, diante da opinião pública.

Veja o que a Escritura diz claramente: “Quando houver contenda entre alguns, e vierem a juízo, para que os julguem, ao justo justificarão, e ao injusto condenarão”. (Deuteronômio 25:1). Fica bem claro que não há nenhuma implicação de melhora moral. Os juízes não existem para fazer ninguém melhor, mas para declarar o que é certo aos olhos da lei. Uma corte ou juiz humanos só podem manter a justiça ao justificar o inocente, mas Deus mantém a justiça e magnífica a graça ao justificar o pecador. (Romanos 4:5). Não existe ninguém inocente para Deus justificar, pois todos pecaram. A pergunta a seguir diz respeito ao autor da salvação.

O AUTOR DA JUSTIFICAÇÃO OU QUEM É O JUSTIFICADOR

Esta pergunta é respondida de modo explícito em Romanos 8:33: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica”. Não existe salvação através da auto-salvação. Em Lucas 10:29 lemos sobre um certo doutor da lei que estava disposto a justificar a si mesmo, mas não foi salvo desse modo. Paulo disse, que mesmo não tendo nada contra si, não poderia ser justificado, pois é o Senhor quem julga (I Coríntios 4:4). Havia fariseus que se justificavam diante dos homens, mas isto não significava salvação. Para ser justificado diante de Deus é preciso que se seja justificado por Deus. Talvez alguém tenha ima ficha limpa moralmente perante amigos e vizinhos, mas para ser salvo é preciso que seja declarado justo por Deus. É o próprio Deus quem deve pronunciar a absolvição, senão continuamos condenados diante de Sua lei justa. A consciência de alguém talvez não o condene, mas a questão da culpa e do castigo não é por conta da consciência. A consciência de ninguém o destina ao inferno. Não é a consciência humana, mas o Deus santo, que primeiro deve ser satisfeito, antes de haver a justificação. Isto leva a outra pergunta:

A FONTE DA JUSTIFICAÇÃO OU O QUE FAZ DEUS JUSTIFICAR O PECADOR

A grande resposta a esta pergunta se encontra em Romanos 3:24: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”. O advérbio “gratuitamente” significa “sem nenhuma causa ou razão no pecador”. É a mesma palavra usada em João 15:25, onde Cristo diz: “Odiaram-me sem causa”. Não havia nada em Cristo que merecesse o ódio dos homens e não há nada em pecador nenhum que seja a causa de Deus justificá-lo; a causa é o próprio Deus. Não é o bem no pecador, mas a graça em Deus que O faz justificar. Em Romanos 11:6, o apóstolo diz: “Mas se é por graça, já não é pelas obras”. Misturar qualquer mérito humano com a graça divina é destruir a graça. Ou é tudo pela graça ou não é nada pela graça. Não existe conjunção que una nada à graça como fonte ou causa da justificação. Mesmo assim, os homens se atrevem a misturar algo do homem com a graça de Deus, como a causa que leva à justificação. Isto é dividir a honra e o louvor da salvação entre o pecador e o Salvador; entre o homem e Deus. Os homens podem fazer isto aqui na terra, mas no céu, toda a honra e louvor são atribuídos somente a Deus. Isto nos faz pensar em outra questão:

A BASE JUSTA OU A BASE MERITÓRIA DA JUSTIFICAÇÃO

Baseado em que Deus pode justificar o pecador e ainda continuar justo? A base é o sangue da expiação. “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”. (Romanos 3:24). “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas; segundo as riquezas da sua graça”. (Efésios 1:7). “Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira”. (Romanos 5:9). “Senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (I Coríntios 2:2) é a única base justa para a justificação de qualquer pecador. Não existe “E” em lugar nenhum da Bíblia, ligando qualquer coisa a Seu sangue como base justa da justificação.

O único meio pelo qual Deus pode justificar um pecador, sem cometer um erro, é colocando os pecados do pecador sobre Cristo e creditando a obediência de Cristo na conta do pecador. Chama-se a isto justiça imputada, ou justiça de Deus. É a justiça feita por Cristo na cruz, quando foi obediente até à morte. Deus justifica o pecador arrependido com base na obediência de seu Fiador e Substituto, Jesus Cristo. A obediência é sempre necessária à justiça. E como o pecador não possui nenhum registro de obediência, é portanto injusto, em seu próprio registro. Para o pecador se tornar justo diante de Deus, tem que ser através da obediência de Cristo. Esta obediência é creditada (imputada) à conta do pecador, pois Jesus Cristo foi feito, para nós “por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”. (I Coríntios 1:30).

Não nos esqueçamos que o Senhor Jesus veio a este mundo como uma pessoa pública ou representante. Antes de Se tornar homem, Ele era Deus e, como Deus, não tinha nenhuma obrigação pessoal perante a lei, a não ser fazer cumpri-la, como legislador. Ele, o qual deu a lei, foi colocado sob a lei, com o propósito de redimir aos que estavam sob a lei, a fim de que pudéssemos ser adotados como filhos de Deus (Gálatas 4:5). Não possuindo nenhuma obrigação pessoal, Cristo pôde assumir as obrigações de um fiador. Fiador é aquele que assume todas as responsabilidades legais do devedor – daquele que fez a dívida. Como Fiador para com Seu povo, era obrigação de Cristo morrer. Ele próprio disse que tinha que morrer. Após Sua morte e ressurreição, Ele se juntou aos dois que iam a Emaús e lhes disse: “Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?” (Lucas 24:26). Foi pela graça que Jesus tomou sobre Si os compromissos da fiança, mas ao fazê-lo, ficou preso ao dever de morrer pelos pecadores. Mesmo assim, ainda temos perguntas em relação à justificação. Vamos considerar a seguir:

O MEIO PARA A JUSTIFICAÇÃO OU O QUE O PECADOR DEVE FAZER PARA SER JUSTIFICADO

O pecador é justificado pela fé e apenas pela fé. “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei”. (Romanos 3:28). “tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus”. (Romanos 5:1). “Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça”. (Romanos 4:16). Acrescentar algo à fé, por parte do pecador, é acrescentar algo à graça, por parte de Deus. E, como a fé olha para Cristo para a salvação, acrescentar algo à fé, seria o mesmo que acrescentar algo a Cristo. Que tal pensamento pereça! Somente Ele é digno de toda a glória!

A fé salvadora é muito mais que uma aceitação mental à verdade do evangelho, ou ao recebimento de fatos do Evangelho. Confiar, ou depender de Cristo para a salvação, é o elemento necessário na fé salvadora. Creio em Dom Pedro I, isto é; minha mente reconhece certos fatos sobre ele, mas nunca me ocorreu confiar nele para minha salvação. Podíamos dar a este tipo de crença o termo de fé histórica – o tipo de fé que quase todo mundo tem em Deus e em Jesus Cristo. Mas um elemento chave na fé que salva é a dependência ou confiança em Cristo.

Não sou meu! Por Cristo salvo, que por mim morreu na cruz,
Eu confesso alegremente que pertenço ao bom Jesus.
Não sou meu, Oh! Não sou meu! Bom Jesus, sou todo Teu!
Hoje mesmo e para sempre, bom Jesus, sou todo teu!
Não sou meu, por Cristo salvo! Pois, seu sangue derramou
E da pena do pecado a minha alma resgatou.
Não sou meu, Oh! Não sou meu! Bom Jesus, sou todo Teu!
Hoje mesmo e para sempre, bom Jesus, sou todo teu!
Não sou meu! A Ti confio tudo quanto chamo meu;
Tudo em tuas mãos entrego, pois, Senhor, sou todo seu.
Não sou meu, Oh! Não sou meu! Bom Jesus, sou todo Teu!
Hoje mesmo e para sempre, bom Jesus, sou todo teu!
Não sou meu! Oh! Santifica tudo quanto sou, Senhor;
Da vaidade e da soberba livra-me, meu Salvador!
Não sou meu, Oh! Não sou meu! Bom Jesus, sou todo Teu!
Hoje mesmo e para sempre, bom Jesus, sou todo teu!

RECONHECIMENTO, Cantor Cristão – 307

A virtude da fé se encontra no valor do seu objeto. Jesus Cristo, através de Sua morte e ressurreição, é o único objeto da fé que salva. Fé, por mais forte que seja, em qualquer outro objeto, não pode justificar. Isto torna a fé algo tão diferente quanto possível do mérito. Richard Hooker diz: “Deus justifica o homem que crê, não pelo valor de sua crença (fé), mas pelo valor dAquele (Jesus Cristo) em quem crê”. Receber comida das mãos de um benfeitor, não torna o mendigo digno dela. Um pecador não se torna digno da salvação ao recebê-la como um presente de Jesus Cristo. Ao contrário, implica em que ele não é digno. O pecador é acusado de modo justo, mas é gratuitamente perdoado. Não é nossa fé, como mérito, que vale para a justiça, mas Cristo, o objeto da fé. O próprio Senhor Jesus é nossa justiça. Não somos salvos por causa da nossa fé; somos salvos por causa dEle. Não devemos confiar em nossa fé e sim nEle. E para encerrar, só mais uma pergunta:

A EVIDÊNCIA DA JUSTIFICAÇÃO OU

O QUE ALGUÉM FAZ PARA PROVAR SUA FÉ

A evidência da nossa justificação são as obras e só elas. Isto inclui o batismo como obra de justiça. Aquele que diz ser salvo mas se recusa a ser batizado, depois de lhe ensinarem o significado do batismo, tem algo contra ele, a meu ver. Somos salvos somente pela fé, mas não por uma fé solitária, pois fé sem obras é morta. Aquele que possui a fé que salva, recebeu também uma inclinação santa no novo nascimento, uma inclinação ou natureza que procura agradar a Deus. A primeira pergunta de Saulo, após sua conversão foi: “Senhor, que queres que eu faça”? (Atos 9:6). A fé salvadora age pelo amor. No novo nascimento há um aspecto triplo da graça que passa a existir: a fé, a esperança e o amor. Estes três são inseparáveis.

Não há diferença real entre Paulo e Tiago no assunto da justificação. Eles se complementam; não se contradizem. Tratam com classes diferentes ao falarem sobre a justificação. Paulo escreve sobre a justificação de um pecador. Tiago escreve sobre a justificação de um crente. Os dois ilustram o ensino usando a mesma pessoa, Abraão. Paulo usa Abraão como pecador e escreve sobre a justificação no sentido da salvação. Tiago usa Abraão, após ser salvo por muitos anos, e mostra que ele foi justificado pelas obras ao oferecer Isaque. Paulo escreve sobre Deus recebendo um pecador. Tiago, sobre Deus aprovando um crente. Paulo fala sobre a justificação das pessoas. Tiago, sobre a justificação da profissão de fé, que é justificada pelas obras. Tiago desafia a fé do homem que diz que a possui, mas não tem obras. A fé sobre a qual este homem fala, pode salvá-lo? Cada salvo é justificado tanto pela fé como pelas obras. Como pecador hostil, ele é justificado pela fé no sangue de Cristo. Como crente professo, é justificado, vez após vez, por suas obras. Não existe modo de mostrar nossa fé, a não ser por nossas obras. O salvo é aquele que depende unicamente de Cristo para a sua salvação e que, por amor, busca diariamente agradá-lO. O salvo é pobre de espírito; sente tristeza por causa dos seus pecados; sente fome e sede de justiça e anseia ser perfeitamente incólume. O salvo antecipa a perfeição, mas não a reivindica. Que tanto o autor quanto o leitor possam dizer como Paulo: “Eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia”. II Timóteo 1:12.

Published inDefinição de doutrina – Volume 2