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Capítulo 14: Regeneração ou novo nascimento

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John Ruskin (1819-1900), crítico de arte, autor e economista político inglês disse:

“A pergunta mais importante que se pode fazer a qualquer ser vivo é: De que é que você gosta. Saia pela rua e pergunte à primeira pessoa que encontrar, de que é que gosta, e se ela lhe responder sinceramente, então você pode conhecê-lo bem, corpo e alma. Aquilo do que gostamos determina o que somos; é um sinal do que somos…”.

Se o gosto do qual Ruskin fala se aplicar a coisas morais e espirituais, então o que ele diz é uma verdade muito séria. O homem tem um gosto moral e também físico. O que ele gosta como ser moral – em relação ao Deus verdadeiro e à Sua Palavra – determina o que é como ser moral e serve de sinal para os outros, mostrando o que ele é realmente. A gente pode se conhecer através do teste daquilo que gostamos. O gosto é o desejo moral e este desejo moral determina a ação moral.

O gosto moral de Davi se revela, quando ele diz: “uma coisa pedi ao SENHOR, e a buscarei: que possa morar na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do SENHOR, e inquirir no seu templo”. Salmo 27:4. “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” Salmo 42:1-2. Este desejo por Deus mostra que o salmista é um homem segundo o coração de Deus. O Dr. Broadus nos dá um teste triplo sobre o caráter pessoal: – O que a pessoa lê quando está cansada? O que a pessoa pensa quando está sozinha? Onde ela vai, quando está longe de casa?

Este teste revela a necessidade da regeneração para cada pessoa. Em sua condição natural, o homem não gosta do Deus da Bíblia; não anseia pela presença de Deus, como Davi ansiava; prefere evitar Deus, como Adão e Eva fizeram ao pecar, escondendo-se de Deus. O homem natural não sente gosto pelas coisas de Deus. O homem em seu estado natural e caído não ia gostar do céu, se pudesse ir lá. O céu é um lugar preparado para um povo preparado. A regeneração é o único remédio. Cada pessoa tem que ser transformada em uma nova criatura, se quiser ver ou entrar no reino de Deus.

A NATUREZA DA REGENERAÇÃO

A regeneração é o aspecto da salvação no qual o pecador morto – com todas as suas faculdades da alma em ruína moral, paralisado em relação a Deus e à santidade, totalmente incapaz de agradar a Deus – torna-se filho de Deus, passando a gostar de tudo aquilo que é de Deus.

Portanto, a regeneração pode ser definida como a obra graciosa de Deus na alma humana, através da qual o coração se torna capaz de amar a Deus, a mente se torna capaz de entender o Evangelho de Cristo e a vontade se torna capaz de escolher a Cristo, tanto como Salvador quanto como Senhor. Esta definição está em harmonia com a Declaração de Fé de New Hampshire que diz: “A regeneração consiste em se dar uma inclinação santa à mente; a qual é efetuada de um modo acima da nossa compreensão, pelo poder do Espírito Santo de Deus em conexão com a verdade divina, a fim de assegurar nossa obediência voluntária ao Evangelho e que esta evidência peculiar aparece nos frutos santos do arrependimento, fé e novidade de vida”.

John Flavel (1630-1691) disse que o coração do homem é sua parte pior antes da regeneração, mas que se torna a parte melhor após a regeneração; que é a base de princípios e a fonte de ações; que os olhos de Deus estão, e os do crente devem estar fixos principalmente nele.

Regeneração não é fazer uma pessoa vir a existir; é o nascimento de alguém que já existe; portanto, um segundo nascimento. Não é fazer novas faculdades ou partes virem a existir. O homem pecador tem tantas partes ou faculdades em seu ser quanto o regenerado. Nenhuma parte do homem foi aniquilada na queda, mas todas as partes se tornaram depravadas. A regeneração não se baseia numa não-existência, mas sim numa existência depravada. A alma do homem é dotada de coração, mente e vontade. O homem pecador possui todas as faculdades, porém num estado em ruínas ou depravado. Ele tem uma mente, que pode pensar e entender, mas não gosta de pensar em Deus, nem pode entender as coisas de Deus. Tem um coração, para que possa amar, porém não ama a Deus. Tem uma vontade, a fim de poder escolher, mas não escolhe Cristo como Senhor e Salvador.

Regeneração é essencialmente uma mudança do gosto fundamental da alma. Queremos dizer com gosto, a direção da mente e inclinação de seus afetos, a tendência da vontade. Alterar este gosto não é imputar uma nova faculdade ou criar uma nova substância; é simplesmente dar a Deus aquela afeição que até agora fora dada ao eu e ao pecado. Na regeneração, Deus reverte a direção da alma. Ele muda o gosto, de forma que o homem passa a amar o que antes odiava e a odiar o que antes amava.

A regeneração não é a erradicação da natureza pecaminosa, mas sim a imputação de uma nova natureza, a qual não tem pecado. O homem salvo nasce duas vezes e tem um disposição ou natureza dupla. Isto cria um conflito entre as naturezas carnal e espiritual (Gálatas 5:17). Paulo tinha este conflito em sua vida. Ele se deleitava na lei de Deus, de acordo com o homem interior, mas estava cônscio de outra lei ou força, de modo que não podia fazer o bem que queria (Romanos 7:14-25).

DOIS ASPECTOS DO NOVO NASCIMENTO

No primeiro aspecto, a alma é passiva. Deus muda a disposição dominante através de ato criador, isto é, sem uso de nenhum meio e sem cooperação nenhuma, por parte do pecador. E só podia ser assim, pois como pode a morte contribuir para a vida, ou o imundo purificar a si mesmo e um cadáver se enfeitar? Resumindo, a regeneração tem que ser totalmente vinda de Deus, a menos que a natureza aja contrária à natureza. Se a mente carnal odeia a Deus; se as coisas de Deus são loucura ao homem natural; se os que estão na carne não podem agradar a Deus, que esperança há, para que tal natureza aja de modo diferente? Não existe tal coisa como auto-nascimento, quer no plano físico quanto no espiritual. A mãe dá à luz ao filho e no plano moral nascemos de Deus.

No segundo aspecto da regeneração, Deus assegura a ação inicial da nova natureza, e neste aspecto, a alma é ativa. O arrependimento e a fé são ações do coração do pecador, que reage à obra vivificadora do Espírito Santo. Os dois aspectos da regeneração são simultâneos. No próprio instante em que Deus dá uma inclinação santa à alma, Ele faz brilhar a luz da verdade do Evangelho e induz o pecador a agir conforme a santa inclinação que Ele imputou.

Esta distinção é necessária, por causa da apresentação dupla da mudança, que encontramos nas Escrituras. Em algumas passagens a mudança é atribuída inteiramente a Deus (João 1:13). Ao mudar o gosto básico da alma não há uso de meios nem cooperação do pecador. De fato, a verdade é rejeitada, até que a inclinação seja mudada. Em outras passagens, vemos a verdade sendo empregada como meio e a mente age através da ação da verdade (Tiago 1:18, I Pedro 1:23). Negar estes dois aspectos faria com que tivéssemos um crente não regenerado por um lado, ou um descrente regenerado por outro, sendo que, nenhum dos dois é possível.

A NECESSIDADE DA REGENERAÇÃO

O que escrevemos anteriormente revela porque o novo nascimento é necessário, mas agora vamos ampliar e ilustrar esta verdade.

A depravação da natureza humana faz com que o novo nascimento seja necessário. O nascimento físico não produz qualidade nenhuma que agrade a Deus. “Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus”. Romanos 8:8. Paulo lembra aos judeus que ser descendente carnal de Abraão, não os torna filhos de Deus (Romanos 9:8). O homem possui a corrupção herdada através da natureza caída. Davi não estava refletindo sobre a virtude da sua mãe, porém confessava sua depravação inata, ao exclamar: “Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmo 51:5). Talvez alguém diga: “Sei que faço coisas erradas, mas meu coração é bom”. Deus, porém, dá outro veredicto bem diferente. Cristo ensinou que o coração humano é a própria fonte de tudo quanto é pecaminoso: “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem” (Marcos 7:21-23). As afeições humanas são mal colocadas. O homem ama, naturalmente, aquilo que é contrário a Deus. Ele tem que nascer do alto, a fim de amar a Deus. “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido (já tem nascido) de Deus e conhece a Deus” (I João 4:7).

A vontade humana é antagônica a Deus. A vontade de Deus deve ser suprema em cada vida. No entanto, a natureza humana é dominada pela vontade própria. “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho”. Isaías 53:6. Na vida de Cristo, a qual é a única perfeita, a vontade de Deus foi suprema: Ele veio, não fazer Sua própria vontade, mas a vontade do Pai.

Além disto, por natureza, o homem se encontra num estado de escuridão moral, completamente ignorante das coisas de Deus. Ele não pode compreender as coisas do Espírito: “Por lhe parecem loucura; não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. I Coríntios 2:14. Tem que haver nascimento espiritual, antes de poder existir um entendimento espiritual.

O autor, certa vez, ouviu sobre uma menina com um defeito visual desde o nascimento. Os pais não perceberam logo, que ela não podia ver muitos objetos comuns aos outros. A menina já estava quase uma mocinha, quando finalmente a levaram ao oftalmologista. Ele aconselhou os pais, os quais aceitaram que ele a operasse. A menina foi mantida num quarto escuro, por várias semanas, após a cirurgia. Certa noite, clara e fragrante, ela foi sozinha à varanda. Na mesma hora, entrou em casa correndo, cheia de animação; Ei, vamos lá fora! Venham ver o que aconteceu no céu!

Os pais saíram correndo com ela, mas não viram nada, a não ser a glória costumeira das estrelas – coisas que a filha nunca vira antes. Nada havia acontecido com o céu, mas algo acontecera aos olhos dela. Assim também, o homem pecador tem os olhos do entendimento obscurecidos em relação à verdade espiritual que salva. As estrelas da verdade do Evangelho brilham no firmamento da Palavra de Deus, mas o perdido não as vê. “Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto”. II Coríntios 4:3.

A CAUSA EFICAZ DA REGENERAÇÃO

Queremos dizer com isto, o poder pelo qual a eficácia é assegurada. Qual é o poder que causa o novo nascimento? As várias respostas à esta pergunta podem ser resumidas em três opiniões gerais.

1. Há quem coloque a causa eficaz ou poder regenerador na vontade humana. Esta opinião enfatiza o plano da salvação e torna a reação ao plano, isto é; a fé no Evangelho, dependente da vontade humana. Dizem que se o pecador crer no Evangelho, será nascido de novo. Isto confunde a justificação e a própria regeneração. Lemos, muitas e muitas vezes, que somos justificados pela fé, mas nunca, que somos regenerados através dela. As vontades humanas – a ação de sua vontade – são, praticamente a sombra de suas afeições. Não se pode separar um homem de sua sombra, fazendo-o ir numa direção e a sombra em outra. Também não se pode fazer a vontade do homem ir em sentido contrário ao seu coração. O homem escolhe fazer o que faz, por causa da condição de seu coração. João 1:13 é bem conciso neste sentido. “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”.

2. Outra opinião faz da verdade, a causa eficaz da regeneração. Esta opinião coloca o poder do novo nascimento no Evangelho. Alexander Campbell é um dos maiores defensores desta opinião. Ele diz: “Suplicamos que todo o poder vivificador do Espírito Santo seja mostrado na Bíblia. Porém esta opinião nega qualquer obra interna ou subjetiva do Espírito Santo no coração do pecador. O pregador tem que fazer o Evangelho tão atraente que o pecador, sem qualquer mudança, no coração, o aceite. Mas, para um coração que odeia Deus, quanto mais simples se fizer o Evangelho, mais este coração o odiará. Se isto fosse verdade, então seria um absurdo orar a Deus, pedindo-Lhe para regenerar o coração do pecador, pois seria mais do que Ele pode fazer – porque segundo eles, a regeneração simplesmente é o efeito da Palavra pregada. É o que se chama de teoria “da palavra somente”, a qual é refutada por Paulo em I Tessalonicenses 1:4-5: “sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza”. Esta opinião inventa uma porção de expressões tolas, que são anti-bíblicas, tais como: “energizando a verdade” ou “iluminando a verdade”. Não há nada errado com a verdade. O problema existe no entendimento obscurecido do pecador. Deus não torna a verdade mais verdadeira, porém abre mentes cegas pelo pecado, a fim de que possam entender (I Coríntios 3:5, II Coríntios 4:6). A Palavra de Deus dá sabedoria em revelação às coisas espirituais. O Evangelho é a luz objetiva; o Espírito Santo dá luz subjetiva.

O Dr. T. T. Shields pregou certa vez, usando o seguinte texto: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”. I Timóteo 1:15. poucos dias depois, recebeu uma carta, de um homem, que dizia assim: “Gostei muito do seu sermão, domingo passado e não pude entender porque ninguém foi salvo. Mas sua oração, após o sermão, estragou tudo. O senhor pediu a Deus, que através do Espírito Santo, levasse pecadores à aceitação do Evangelho. Estou escrevendo, para lhe perguntar: O que o Espírito Santo tem a ver com isto? O caminho da salvação foi apresentado e tudo o que tinham que fazer era aceitá-la”. Este homem teria razão, se a verdade e a vontade humana fossem tudo o que é necessário para a salvação, e orar a Deus para fazer algo no pecador seria tolice. Esta opinião ignora completamente a verdade da depravação do homem.

3. A posição deste autor é que a ação imediata do Espírito Santo é a causa eficaz da regeneração. O poder do Espírito Santo é imediato, isto é, não depende nem flui através de nada, nem mesmo do próprio Evangelho. Odeia-se e rejeita-se o Evangelho, como se fosse uma tolice, até que o poder direto do Espírito Santo muda a inclinação dominante do coração. Como alguém já disse: “Nosso coração natural é feito de pedra. A Palavra de Deus é a boa semente plantada no solo duro, pisado e empedrado, o qual os cavalos das nossas paixões impuras, da nossa própria vontade rebelde e do tesouro do coração imundo tornaram impenetrável. O evangelho é a boa semente, mas a boa semente não torna um solo bom. Paulo pode plantar e Apolo regar; mas é Deus que tem que dar o crescimento.

Vem, Espírito Divino, grande ensinador!
Vem! Descobre às nossas almas Cristo o Salvador.
Cristo! Mestre! Ouve com favor!
Em poder e graça insigne obre teu amor!
Vem! Demole os alicerces da enganosa paz,
Aos errados concedendo salvação veraz!
Cristo! Mestre! Ouve com favor!
Em poder e graça insigne obre teu amor!
Vem! Reveste a tua igreja de poder e luz!
Vem! Atrai os pecadores ao Senhor Jesus!
Cristo! Mestre! Ouve com favor!
Em poder e graça insigne obre teu amor!
Maravilhas soberanas, outros povos vem;
Oh! Derrama a mesma bênção sobre nós também!
Cristo! Mestre! Ouve com favor!
Em poder e graça insigne obre teu amor!

DESEJO DA ALMA, Cantor Cristão – 116.

Published inDefinição de doutrina – Volume 2

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