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Capítulo 12: Eleição

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Qualquer pessoa que tenha o mínimo respeito pela Bíblia, vai admitir que existe uma doutrina ou ensinamento sobre a ELEIÇÃO. Em relação a esta doutrina a cristandade se dividiu em dois grupos. As denominações que acreditam que a salvação é totalmente pela graça, sem mérito humano nenhum, seja a que altura for, confirmam a eleição em suas confissões de fé, ao passo que aquelas que dão lugar ao mérito humano deixaram o assunto fora de suas confissões. Por exemplo: quando João Wesley separou-se da Igreja da Inglaterra (Anglicana), ele fez algumas mudanças nos Trinta e Nove Artigos, eliminando completamente o Dezessete, que fala sobre a Predestinação e Eleição. Contudo, João Wesley expressou-se em relação ao assunto. Em certo lugar, ele diz: “A Bíblia nos ensina claramente o que é a predestinação: é a escolha feita por Deus, de antemão, de crentes no Evangelho para a salvação, não sem, mas segundo a Sua presciência de todas as suas obras desde o princípio do mundo – Deus, desde a eternidade já sabia que homens iam crer ou não. De acordo com Sua presciência, Ele escolheu ou elegeu todos os crentes obedientes para a salvação”.

CONDICIONAL OU INCONDICIONAL

Assim pois, João Wesley tornou o assunto bem claro: os que acreditam que a eleição é condicionada a algo bom que se prevê no pecador, como base para a escolha divina são chamados corretamente de arminianos. Os que negam qualquer coisa boa no pecador como base para esta escolha são chamados corretamente de calvinistas. Em outro lugar, João Wesley afirma que os arminianos acreditam que a eleição seja condicional. O que a Bíblia diz? Paulo fala assim em Romanos 11:5-6: “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra”. Paulo alude às condições em Israel, na época de Elias, que achava que era o único e verdadeiro adorador de Deus que restara na terra. Deus corrigiu o profeta ao dizer: “Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou”. (I Reis 19:18). O significado óbvio é que Deus intervira graciosamente, a fim de impedir sete mil de seguirem a multidão idólatra. “Assim, pois”, é o que Paulo diz, referindo-se ao remanescente de crentes verdadeiros de sua época, que não eram naturalmente, melhores do que a multidão descrente, mas que fora graciosamente escolhido para a salvação. Com o mesmo objetivo, o Apóstolo diz aos coríntios: “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias, como se não o houveras recebido?” I Coríntios 4:7.

Spurgeon é bem direto ao afirmar que aqueles que não acreditam na eleição como doutrina, acreditam no coração como questão de experiência. Certa vez, ele pregava a uma congregação composta principalmente de metodistas. Eles aprovavam a mensagem, em voz alta, até que Spurgeon disse: “Isso me leva à doutrina da eleição”. Expressões de desaprovação se tornaram evidentes, em conseqüência do que Spurgeon disse ao público que eles acreditavam na eleição e que ele os faria exclamar “Aleluia” por causa dela. E foi isto mesmo o que fez. Spurgeon perguntou se havia diferença entre eles e os maus, tais como alcoólatras, meretrizes, blasfemos. Em uníssono, disseram haver uma diferença. Spurgeon perguntou quem fazia a diferença e, fosse quem fosse, deveria receber toda a glória por isto. Spurgeon disse a eles: “São vocês que fazem a diferença”? Todos exclamaram, a uma voz: Não! Spurgeon continuou, dizendo que era o Senhor que fazia a diferença. Perguntou-lhes, então, se achava errado o Senhor fazer a diferença entre eles e os ímpios. Todos concordaram que não era errado. Spurgeon concluiu, dizendo: “Muito bem! Se não é errado Deus fazer esta diferença, também não é errado que Ele se propusesse a fazê-la, e isto é o que significa a doutrina da eleição”. Todos os que assistiam, exclamaram “ALELUIA”! como o pregador disse que fariam. O mártir John Bradford, certa vez observava policiais levando um criminoso à prisão e exclamou: “podia ser eu, se não fosse pela graça de Deus”!

Cada crente verdadeiro, quando de joelhos, aprova a doutrina da eleição incondicional. Ninguém pode orar de verdade, ao mesmo tempo em que se vangloria de qualquer coisa boa em ou de si mesmo (Lucas 18:10-14). A graça soberana aparece na oração, embora seja deixada de lado no púlpito. Nenhum salvo vai se ajoelhar e reivindicar diante de Deus que ele mesmo se fez diferente dos que não são salvos. E, ao orar pelos perdidos, suplicamos a Deus que os convença do pecado e os converta à fé em Cristo. Não dependemos do livre arbítrio da vontade deles, mas imploramos a Deus que os faça dispostos a virem a Cristo, sabendo que quando fizerem isto, nunca jamais Ele os lançará fora (João 6:37). Conta-se de um certo pastor metodista que ouviu certa vez um presbiteriano pregar. Depois do sermão,o metodista disse ao presbiteriano: Foi um ótimo sermão arminiano. O presbiteriano replicou: Foi. Nós presbiterianos somos bons arminianos quando pregamos. Vocês metodistas são bons calvinistas quando oram.

Ao orar pelos perdidos pedimos exatamente o que a Deus? O que Paulo pediu a Deus para fazer por Israel? O Apóstolo pediu que Ele os iluminasse espiritualmente, para que deixassem de tentar salvar a si mesmos e confiassem em Cristo para a justiça, que tentavam estabelecer por si mesmos. Ver Romanos 10:1-4. Parece espantoso acreditar que qualquer aspecto da salvação seja condicionado a algo que o pecador possa fazer, à parte da graça que Deus opera no coração da pessoa.

A POSIÇÃO HISTÓRICA DOS BATISTAS

Quase todas as confissões de fé publicadas pelos batistas tratam sobre o assunto da eleição. Este autor pode até afirmar que concorda com todas elas, desde que concordem virtualmente uma com a outra. A posição histórica dos batistas sobre a eleição foi sucinta e claramente afirmada no “Sumário dos Princípios” do Seminário De Louisville, Kentucky, EUA. O Artigo V desta Confissão diz assim: “A eleição é a escolha eterna de Deus de algumas pessoas para a vida eterna; não por merecimento algum pressuposto por parte delas, mas unicamente pela misericórdia de Deus em Cristo. Em conseqüência desta escolha, estas pessoas são chamadas, justificadas e glorificadas”.

Em harmonia com a declaração acima, há várias coisas a serem ditas, de modo a explaná-la melhor:

1. Eleição é a escolha de Deus. É Deus quem escolhe, na eternidade, aqueles a quem vai salvar depois no tempo. Deve haver escolha ou então o universalismo. A palavra eleição está ligada a Deus e não ao homem. Marcos 13:20 fala sobre o eleito de Deus assim: “Os eleitos que escolheu”. A teologia de que Deus é por nós e Satanás contra e que podemos desempatar é totalmente contrária aos ensinamentos bíblicos, e é quase ridícula demais para ser notada. O Senhor Jesus disse aos discípulos: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós”. João 15:16. Ver também Efésios 1:4, II Tessalonicenses 2:13. A auto-eleição é uma forma maligna da justiça própria.

2. A eleição é a escolha de Deus de algumas pessoas. A eleição universal é um termo contraditório. É óbvio demais para que seja preciso argumentar. Em Romanos 11:7 Paulo diz que os eleitos alcançaram a salvação; e os outros foram endurecidos.

3. A eleição é a escolha eterna de Deus. Em Efésio 1:3-4 lemos sobre as bênçãos espirituais que temos nos lugares celestiais: “como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo”. Em II Timóteo 1:9, Paulo diz que Deus “nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”.

4. A eleição é a escolha graciosa de Deus. Isto significa que não houve nada, por parte do homem, que servisse de causa ou base para esta escolha, mas só pela Sua misericórdia em Cristo. A eleição incondicional é bem ilustrada no caso de Esaú e Jacó. “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)”. Romanos 11:7. Isto, naturalmente, faz o homem objetar: “Há injustiça da parte de Deus”? Romanos 9:14. Paulo replica com uma negação e depois insiste na soberania de Deus: “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer”. Romanos 9:18. Somente o prazer da própria soberania de Deus determina ou escolhe o objeto de Sua misericórdia.

5. A eleição é para a salvação. Não se pode negar uma escolha divina em relação às nações para bênçãos e privilégios externos, nem que certos indivíduos foram escolhidos para um serviço em especial; mas afirmamos que a Escritura também ensina uma eleição de indivíduos para a vida eterna. Ver II Tessalonicenses 2:13. A eleição não é a salvação, mas é para a salvação, o que significa que vem antes e não depois da salvação. Os homens são salvos quando confiam em Cristo, não quando são eleitos. O presidente do país não se tornou presidente ao ser eleito, mas sim no momento de sua posse. Não houve apenas uma eleição para a salvação, mas também uma indução a isto. Assim, os eleitos de Deus são induzidos à posição de santidade, através do chamado eficaz (a obra vivificadora do Espírito Santo) e assim, tornaram-se crentes no Evangelho. I Coríntios 1:29.

6. A eleição é uma doutrina desafiadora. O Artigo IX da Confissão de Fé de New Hampshire diz em parte: “Que a eleição deve ser ratificada por seus efeitos em todos quantos realmente crêem no Evangelho; que é o alicerce da segurança do crente; e que ratificá-la em relação a nós mesmos exige e merece a máxima diligência. Pedro (II Pedro 1:14) nos exorta a diligentemente “procurar fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição”, significando que devemos, nós mesmos, ter a certeza dela. Existe o perigo de se pensar que é salvo sem a devida evidência de tal fato. Nenhum descrente ou crente só de nome tem qualquer direito de buscar conforto na doutrina da eleição. Ela é a “comida dos filhos”. Há algum tempo atrás, o autor tentou testemunhar a um homem em relação à necessidade do Salvador. Ele usou esta doutrina, a fim de justificar sua indiferença, dizendo desinteressadamente que quando Deus estivesse pronto para salvá-lo, Ele o faria. Disse a este senhor: Existe verdade no que diz, mas não é a verdade que o senhor precisa, pois se não se arrepender e crer, com certeza irá para o inferno.

OBJEÇÕES CONSIDERADAS E RESPONDIDAS

São muitas as objeções feitas à doutrina da eleição incondicional. Às vezes, os opositores são barulhentos e furiosos. As tiradas de João Wesley contra esta doutrina fazem-nos sentir mal. E muitos batistas são quase tão severos quanto ele.

1. Objeta-se que a eleição limita a misericórdia de Deus. Criticamos logo os críticos, pois quem faz tal objeção limita tanto a misericórdia quanto o poder de Deus. Eles admitem que a misericórdia de Deus se limita ao crente, e que todos os outros sofrerão a ira da justiça divina. Mas, nossa crítica nega o poder de Deus em fazer o pecador crer sem violentar o livro arbítrio. Na conversão, Deus não mata a vontade humana, apenas a inimizade dela. A esta altura devemos enfrentar duas propostas auto-evidentes. Em primeiro lugar, se Deus está tentando salvar cada pessoa da raça caída de Adão, e não consegue, então Seu poder é limitado e Ele não é o Senhor Deus Todo-poderoso. Em segundo lugar, se não estiver tentando salvar cada membro da raça caída, então Sua misericórdia é limitada. Temos que limitar então ou Sua misericórdia ou Seu poder, ou nos mudar com “armas e bagagens” para a posição universalista (que todos em todo tempo serão salvos). Porém, antes de fazermos isto, vamos “à Lei e ao Testemunho”, que diz: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de que eu tiver misericórdia …..Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer”. Não existe espaço aqui para uma exegese, a não ser dizer que ao endurecer o pecador, Deus não infunde uma natureza pecaminosa, mas permite que a natureza pecaminosa revele sua inimizade natural. O autor prefere a palavra preterição ao invés de reprovação ao descrever o modo como Deus trata o que não é eleito. Ao endurecer, Deus deixa o pecador a seu bel-prazer, no que diz respeito à graça eficaz; na misericórdia, Ele faz novas criaturas em Cristo Jesus. Quando Robert Morrison estava para ir à China, um vizinho incrédulo lhe perguntou se achava que ia causar alguma impressão nos chineses. Sua resposta sucinta foi: “Não, mas creio que Deus vai”. O autor muitas vezes pensa porque mais pecadores não foram salvos nos séculos passados, porém nunca atribui tal fato à falta de poder em Deus. Se Deus podia transformar as pedras em filhos de Abraão, então Ele pode fazer filhos Seus de todos os tipos de pecadores.

2. Objeta-se que a eleição condene ao inferno parte da raça humana. O opositor está errado! É a justiça divina que condena a raça humana inteira. A eleição impede que muitos sejam condenados. A eleição é para aqueles que “já foram condenados”. Ela nem os coloca sob condenação, nem os mantém lá. A eleição não é para a condenação, mas sim para a salvação. Ela não machuca ninguém, mas salva uma multidão que não se pode contar. Se formos objetar a uma doutrina que salva apenas parte da raça humana, então vamos pôr objeção ao Evangelho, pois é isso tudo o que ele faz.

3. Objeta-se que a eleição torna Deus injusto. Esta objeção põe à mostra um coração perverso. Ela obriga o Legislador a salvar o fora-da-lei. Ela torna a salvação uma obrigação divina, revertendo a posição de Deus e do pecador; colocando o pecador no trono e Deus a seus pés. A salvação não é uma questão de justiça, mas sim de misericórdia! Não foi o atributo de justiça que levou Deus a oferecer a salvação, mas sim o atributo de misericórdia. Justiça é simplesmente receber o que se merece. Quem vai para o inferno só tem que culpar a si mesmo, ao passo que, quem vai para o céu, só terá louvores para Deus.

4. Objeta-se que a eleição se opõe à doutrina do “QUEM QUISER”. Mais uma vez, o opositor erra. Nossa opinião sobre a eleição explica e apóia a doutrina do “QUEM QUISER”. Sem a eleição o convite não seria ouvido e ninguém creria. Não é natural ao pecador confiar em Cristo; isto porque sua mente carnal é inimizade contra Deus. A salvação através da confiança em um Cristo crucificado é pedra de tropeço ao judeu e loucura para o grego (gentio). Somente aquele que foi chamado, tanto judeu quanto grego, pode ver nela a sabedoria e o poder de Deus. Cristo disse: “Ninguém pode vir a mim se o pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei (o que foi trazido pela graça, o eleito, C.D.C.) no último dia”. João 6:44. A vontade humana é livre, porém esta liberdade fica dentro dos limites da natureza humana caída. “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. I Coríntios 2:14. Tem que haver o milagre do novo nascimento, porque, a não ser que a pessoa nasça do alto, ela não pode ver, nem entrar, no reino dos céus. O autor não deixa ninguém crer mais na doutrina do “QUEM QUISER”, nem pregar sobre isso com mais sinceridade do que ele o faz. Porém, acredita também que não haveria nenhum crente, se o Espírito Santo não convencesse o pecador de seu estado de perdição e depravação e o convertesse à fé em Cristo. O salvo é a obra-prima de Deus, o produto de Sua graça.

5. Objeta-se ainda que a eleição incondicional destrói o espírito de missões. Esta objeção merece séria consideração. Admite-se que alguns tenham permitido a crença na doutrina de paralisação do esforço missionário. Mas, fazem isto por terem uma visão limitada da doutrina. Não viram que o Evangelho é o meio pelo qual o eleito é salvo. Por outro lado, os maiores nomes na iniciativa e obra missionária eram crentes fervorosos da eleição incondicional. William Carey, muitas vezes chamado o pai das missões modernas, foi um calvinista leal. Andrew Fuller, o primeiro secretário da sociedade que enviou Carey à Índia, agarrava-se tenazmente à doutrina da eleição incondicional. Crer na eleição não destruiu o espírito de missões em Judson, Spurgeon, Boyce, Eaton, Carroll, Graves, Shields e um exército de outros líderes batistas. A Primeira Igreja Batista em Murray, no Kentucky (EUA), chamada certa vez pelo Dr. J. F. Love como “a maior igreja missionária da terra”, ouviu Boyce Taylor (seu pastor) pregar sobre a eleição incondicional durante uns quarenta anos.

Quem deixa sua crença na eleição refrear seu zelo missionário tem uma opinião pervertida da doutrina. A eleição não determina o alcance das missões, mas sim os resultados. A comissão do Evangelho não diz: “aos eleitos”, mas sim “a toda criatura”. Se dissesse “aos eleitos”, então não podíamos pregar a ninguém, pela simples razão do eleito não poder ser identificado, até que exercite a fé que age pelo amor. Sendo assim, já seria salvo, e o Evangelho não seria, portanto, o poder de Deus para a salvação. O Evangelho é para os homens, como pecadores perdidos, não como pecadores eleitos. Deus tem Seus eleitos, mas eles não são nossos eleitos, e a eleição de Deus não pode ser conhecida, antes de serem salvos. Nosso trabalho é evangelizar: cuidar dos eleitos é com Deus. Vamos ser fiéis no que devemos fazer, deixando os resultados com Ele, lembrando que Paulo pode plantar e Apolo regar, mas é Deus quem dá o crescimento.

Published inDefinição de doutrina – Volume 2