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Capítulo 7: A lei da referência paralela

Essa Lei está relacionada, até certo ponto, com a lei do uso comum, mas não é de forma alguma a mesma. O uso comum tem relação com as outras vezes em que a mesma palavra ou frase aparece, enquanto essa lei tem a ver com termos diferentes, mas que se relacionam com o mesmo assunto. A palavra “paralelo” significa lado a lado, e assim essa lei lida com o agrupamento de todas as passagens que se relacionam com determinado assunto, quer elas usem a mesma terminologia ou não. Ao estudar um assunto utilizando o uso comum, precisamos de uma Concordância, uma boa ferramenta, para mostrar onde os mesmos termos aparecem em outros lugares das Escrituras. Mas ao aplicar a lei da referência paralela, precisamos de uma outra ferramenta: o Livro de Tópicos ou de Assuntos. Esta ferramenta tem uma índice temática, ou seja, uma lista de temas relacionados agrupados pelos seus diversos tópicos.

Assim, se uma pessoa fosse estudar o assunto de oração, ela quereria encontrar todas as referências, não só à palavra “oração”, mas também à “intercessão”, “louvor”, “adoração”, “confissão”, “ações de graça”, “petições”, “súplicas”, etc., pois esses termos são todas referências paralelas e têm relação com o assunto geral de oração. Sendo relacionados, eles afetam o que é oração, e ninguém pode esperar vir a entender plenamente o que a oração é e faz sem consultar todos esses termos.

O leitor imediatamente verá que em nossas interpretações da Palavra de Deus, não há espaço sobrando para o estudante preguiçoso ou negligente, pois não há tal coisa como uma pessoa aprendendo a sã doutrina lendo dois versículos e então fechando o Livro. Os que se tornaram mais bem fundamentados nas Escrituras são os que fizeram delas um estudo de vida inteira, e que se esforçaram diariamente para ganhar verdades novas mediante estudo exaustivo. Se uma pessoa for preguiçosa demais ou despreocupada demais para fazer o esforço que o estudo diligente requer, então ela jamais será qualquer coisa mais do que uma criança no conhecimento espiritual. E conseqüentemente, ela provavelmente sempre será um cristão ignorante e imaturo. É interessante e instrutivo observar que Paulo, embora não fosse um teólogo, era um estudante até o próprio fim, pois na última epístola que escreveu antes de sua morte ele deu prova de ainda ser um estudante. “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos“. (2 Timóteo 4:13) Como são poucos, até mesmo entre os pastores de nossa época, os que são verdadeiros estudantes da Palavra de Deus. Sem dúvida, isso explica em grande parte a fraca condição doutrinária da maioria das igrejas de hoje. Disk-sermões é a moda entre muitos.

A Lei da Referência Paralela exige muita comparação das “coisas espirituais com as espirituais”, se quisermos chegar a entender plenamente as Escrituras, pois o Senhor jamais colocou toda a verdade de algum assunto numa só passagem das Escrituras. A razão disso é talvez desencorajar que Seu povo fique preguiçoso, e incentivá-los a estudar diligentemente todas as Escrituras. Pois “Toda Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito,e perfeitamente instruído para toda a boa obra”. (2 Timóteo 3:16-17)

Como ilustração da tolice de não considerar todas as referências paralelas ao se esforçar para interpretar as Escrituras, citamos um erro moderno. Nos anos de 1800, havia um grande debate sobre o assunto do Milênio, e muitos vieram a uma conclusão errônea, pois os homens não estudaram esse assunto sob os numerosos outros termos relacionados com esse assunto. Pelo fato de que referência a um reinado de mil anos dos santos com Cristo só foi feita num lugar, num livro “simbólico por sua própria confissão”, muitos tiveram dúvidas sobre a possibilidade real de um Milênio no futuro. Tais textos como Salmo 149:5-9; Daniel 7:13- 14; Zacarias 14:3-9; 1 Coríntios 15:22-28, e numerosos outros que falam da vinda de Deus para subjugar todas as nações, e reinando com Seu povo, eram ignorados porque não mencionavam a duração específica desse reinado. O fruto inteiro dessas dúvidas só ocorreu em nossa época, na qual grande percentagem de escolas religiosas e seminários ensinam o amilenialismo ” por exemplo, que não há tal coisa como um Milênio no futuro.

Tivessem os estudantes da Bíblia percebido que Apocalipse 20:4-6 tem relação somente com um pequeno aspecto do Milênio, de modo especial sua duração, e tivessem eles estudo o assunto sob seus outros aspectos, o amilenialismo jamais poderia ter colocado um pé na porta para entrar. Outros assuntos relacionados têm a ver com o reino de Cristo, sendo esse reino situado na Palestina, seu governo sendo administrado pelos santos glorificados, sua realização sendo depois da volta literal de Cristo à terra, e outros. Aqui está outra evidência de que quando não conseguimos aplicar todos os dados pertinentes na interpretação muitas vezes criamos um “monstro Frankenstein” de falsa doutrina.

Mas o estudo das passagens paralelas não só raia luz sobre o assunto principal que uma pessoa está estudando, mas também revela o relacionamento do assunto com outros assuntos, de modo que muitas vezes um estudo revelou para ela o inter-relacionamento e harmonia do assunto com outros. Isso nos leva ao que foi dito antes nesse estudo. Se estivermos arando a terra em linha reta em nossas interpretações, jamais precisaremos temer que teremos uma colisão de frente com alguma outra doutrina, e não haverá nem uma sugestão de heresia. A interpretação correta da Bíblia resulta num sistema harmonioso de doutrina por toda a Bíblia.

Outra coisa acerca do uso de referências paralelas é que muitas vezes vemos que Deus profeticamente previa algo épocas antes que viesse a se cumprir, assim confirmando nossa fé na inspiração das Escrituras, e revelando Seu maravilhoso controle providencial de todas as coisas. As referências paralelas, principalmente quando são um cumprimento no Novo Testamento de uma profecia do Antigo Testamento, ou uma referência em passagem do Novo Testamento acerca de uma profecia do Antigo Testamento, muitas vezes revelam detalhes importantes que afetam a interpretação correta do versículo sob consideração. Por exemplo, há muitas coisas declaradas no Salmo 22 que são difíceis, e até mesmo impossíveis de entender, quando aplicadas a Davi. Mas quando as referências paralelas do Novo Testamento são estudadas em paralelo com esse Salmo, o que se revela claramente é que as referências se referem principalmente ao “Davi maior”, o próprio Cristo. Se as referências paralelas do Novo Testamento não fossem consultadas, tentar entender corretamente a referência do Antigo Testamento só resultaria em grande confusão.

A Lei da Referência Paralela lida com o estudo das passagens paralelas das Escrituras, ou doutrinas, muito embora elas não usem os mesmos termos, mas que, quando comparadas, maior luz é dada sobre cada uma, assim ajudando a interpretar corretamente todas elas. Isso é obviamente outra lei bem importante na interpretação da Palavra de Deus.

Published inBíbliaHermenêutica

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