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O Espírito Apóstata

Meu amigo Pedro Escalante chamou minha atenção para essa citação fantástica por Max Scheler:

Mesmo após sua conversão, o verdadeiro ‘apóstata’ não tem como prioridade o conteúdo positivo da sua nova crença e a realização dos seus objetivos. Antes, ele é motivado pela luta contra crenças velhas e vive para testemunhar a sua negação. O apóstata não afirma suas novas convicções por mérito próprio; ele está engajado em uma cadeia contínua de atos vingativos contra seu próprio passado espiritual. Na verdade, ele permanece um prisioneiro do passado, e essa nova fé é simplesmente um ponto de referencia útil para negar e rejeitar o antigo. Como tipo religioso, o apóstata é, portanto, o polo oposto do ‘ressurreto’, cuja vida é transformada pela nova fé que é cheio de significado e valor intrínseca.”

– Max Scheler, Ressentiment

Escalante chamou isto de “convertite”. Em alguma instância, creio que todos nós o temos testemunhado. Quero sim dizer ‘todos nós’. Obviamente é fácil avistar o ateu da faculdade nesse cenário. Adentre qualquer sala de aula e o conhecerá pela sua descrença vocal e superioridade intelectual aos demais adoradores supersticiosos. Ele acredita em Ciência, Razão, e ‘Tolerância’ de todas as perspectivas e estilos de vida que ele julga suficientemente progressivos.

Mas aquele tipo de convertite não é o único no mundo afora. Crescendo dentro da Igreja, tenho visto sofredores de todo tipo. Conheci um pastor que sempre atacava com mais ardor seu Catolicismo Romano anterior, suas superstições e justificação pelas obras, do que apregoava o louvor da graça e justificação pela fé. Creio eu que a primeira vez que percebi o fenômeno de “convertite”, porém, foi ao observar amigos Evangélicos convertendo para outras variações do Cristianismo.

Fadigados pelo espirito anti-intelectual, ou buscando raízes mais aprofundadas, eles pulam no rio Tíber ou fogem para a fé Católica Ortodoxa. Aí encontram vida “de verdade”, tradições ricas, e uma abordagem cheia de nuances que seu grupo de jovens Evangélico jamais poderia oferecer, simplesmente porque o Protestantismo não consegue oferecer fé profunda, tradicional, e intelectualmente sustentável. Sola Scriptura é quimera por causa da interpretação comunal, hermenêutica, e assim adiante. Resumidamente falando.

Confesso, há assuntos teológicos verdadeiros a serem examinados. Mas uma coisa que me marcou, porém, foi a frequência com que essas conversões vem vinculadas com um desprezo escarnecedor da comunidade cristã que inclui seus pais, professores de Escola Dominical, e praticamente todos que os amaram suficientemente para falar de Jesus para eles e tolerar sua tolice adolescente. Obviamente, não foram todos, e até os que vivenciaram isso já progrediram além. Mas, não era um fenômeno periférico. Foi um princípio central.

Em retrospectiva, suspeito que parte disso eu tentava elaborar quando escrevi sobre o Pacote Evangélico-Progressivo. Embora que muito daquela obra acertou o alvo, um elemento que não tratei foi o tanto que esse fenômeno de convertite está ativo na maneira que várias posturas doutrinárias são adotadas. Muitas posições doutrinárias são afirmadas negativamente ao invés de positivamente, e muitos provêm de uma ética de rejeição, rebelião, e negação.

É claro que sendo convertido à tradição Reformada, não é difícil procurar e encontrar variações Calvinistas do mesmo tipo. Pode-se encontrar o tipo Reformado que é mais preocupado em não ser o Evangélico da sua criação, genérico e sem tradição, do que descansando na segurança das doutrinas que chegou a abraçar. De outra forma, ao invés de banquetear na comunhão com Cristo na Ceia, ela é mais preocupada com o mero memorialismo acontecendo ao lado na Igreja/Comunidade independente. O foco não é uma visão positiva na direção no qual avançamos, mas antes um regozijo em nossa superioridade aquilo que deixamos para trás.

De propósito, termino com aquela última ilustração. Leitores desse blog geralmente tendem a ser da persuasão Evangélica Reformada, então não pretendo apontar esse fenômeno para que nós possamos nos dar tapinhas nas próprias costas sobre a sofrência “deles” de convertite. Ao contrário, espero que possam tomar isso como aviso a nós mesmos.

Uma coisa é celebrar algumas das riquezas da tradição Reformada, ou simplesmente Evangélica, ou Cristã, a qual temos chegado de outras origens. Outra coisa é viver uma vida fixada em rejeitar aquilo que antecedeu a nossa chegada. Ao invés disso, proponha a si mesmo a realizar a tarefa de cultivar uma posição rica, alegre e comemorativa. O Evangelho da graciosa salvação em Cristo é de boas novas, e a teologia Reformada, com toda sua profundidade e história existente, ressalta esse fato. Que terrível vergonha é para as pessoas conhecer apenas o que lutamos contra, e não o que cremos de fato.

Não cultivamos espíritos “apóstatas”, mas espíritos ressurretos, pois é exatamente isso que temos recebidos em união com Cristo.

Soli Deo Glória

Published inApologética

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